A competitividade do agronegócio sul-americano frente aos produtores da América do Norte desenha caminhos divergentes para a rentabilidade da safra 2026/27. Relatório de margens agrícolas elaborado pelo banco Rabobank revela que o Brasil mantém as margens operacionais mais elevadas no cultivo de soja e milho, superando com folga o desempenho dos Estados Unidos e da Argentina, embora enfrente desafios severos no custo financeiro e na inadimplência.
No levantamento do RaboResearch, a margem operacional da soja brasileira projeta estabilização em 38%, enquanto a do milho alcança 55%. Em solo norte-americano, os produtores enfrentam o segundo ano consecutivo de forte encolhimento de margens. A taxa operacional da soja nos Estados Unidos situa-se em 15%, enquanto a do milho recua para 3%, patamar que resulta em margem líquida negativa ao incorporar os custos fixos com arrendamento de terra e juros bancários.
Na Argentina, as margens operacionais da soja mostram recuperação significativa, subindo de 9% na safra anterior para 21% no ciclo 2026/27, impulsionadas pela reação nos preços do grão. No entanto, o milho argentino projeta recuo para 23%, pressionado pelo encarecimento vertiginoso dos adubos nitrogenados.
Prejuízo nos EUA: O cultivo de milho norte-americano atinge margem operacional de apenas 3%, gerando rentabilidade líquida negativa para os agricultores dos EUA.
A estrutura de custos operacionais por hectare explicita as assimetrias competitivas entre os três gigantes agrícolas. No cultivo da soja, o Brasil apresenta o menor custo operacional do trio, estimado em US$ 1.245 por hectare para a safra 2026/27. Na Argentina, o desembolso exigido para implantar um hectare da oleaginosa atinge US$ 1.185, enquanto nos Estados Unidos o gasto salta para US$ 1.848 por hectare.
A discrepância torna-se mais pronunciada na lavoura de milho. Os produtores brasileiros desembolsam em média US$ 820 por hectare em custos operacionais diretos, valor consideravelmente inferior aos US$ 1.688 por hectare exigidos na Argentina e aos US$ 1.848 por hectare registrados em fazendas norte-americanas.
O salto nos custos operacionais do milho argentino decorre do aumento de 205% nos gastos com fertilizantes, que passaram de US$ 84 para US$ 255 por hectare. No Brasil, os desembolsos com adubação para o milho fixam-se em US$ 248 por hectare, acompanhados de US$ 131 em defensivos agrícolas.
Discrepância no milho: O custo operacional do milho no Brasil é de US$ 820 por hectare, menos da metade do desembolso exigido nas lavouras dos Estados Unidos.
Além dos custos diretos de insumos e sementes, fatores estruturais de cada país condicionam a rentabilidade final no campo. Na Argentina, a pesada retenção fiscal sobre as exportações agrícolas absorve em média 58% da renda das propriedades, atingindo 60,7% no caso da soja e 53,8% no milho, segundo dados da Fundação Agropecuária para o Desenvolvimento de Argentina.
Nos Estados Unidos, os produtores contam com programas de subsídio e suporte federal para atenuar as perdas financeiras, mas enfrentam spreads entre preço de venda e custo operacional próximos das mínimas históricas dos últimos vinte anos.
No Brasil, o principal obstáculo ao aproveitamento pleno das margens operacionais reside na alta alavancagem financeira dos produtores. O endividamento acumulado em ciclos passados somado às elevadas taxas de juros do crédito rural elevou a inadimplência regional para patamares superiores a 8%.
A evolução das taxas de câmbio e a liquidez nos mercados internacionais de grãos ditarão a capacidade de investimento dos produtores em cada uma dessas três potências agrícolas ao longo de 2027.