A rentabilidade do agronegócio brasileiro na safra 2026/27 apresenta um contraste entre margens operacionais positivas no campo e forte pressão financeira no fluxo de caixa das propriedades. Relatório global de perspectivas de margens publicado pelo banco Rabobank indica que as margens operacionais da soja no Brasil devem se estabilizar em 38%, enquanto as do milho alcançam 55%. Contudo, o elevado custo do financiamento e o endividamento acumulado em ciclos anteriores impulsionaram a inadimplência regional para patamares históricos acima de 8%.
A análise do RaboResearch aponta que a sustentação das margens operacionais em níveis superiores às médias históricas decorre do volume produtivo e da eficiência dos produtores brasileiros. Em contrapartida, os concorrentes diretos enfrentam cenários mais complexos. Nos Estados Unidos, a margem operacional do milho deve despencar para 3% na safra 2027, o que resulta em rentabilidade negativa ao se considerar os custos totais da propriedade.
Na Argentina, o peso dos tributos sobre o setor agrícola absorve cerca de 58% da renda das propriedades, conforme dados da Fundação Agropecuária para o Desenvolvimento de Argentina citados no estudo. Essa carga tributária atinge 60,7% na cultura da soja e 53,8% no cultivo de milho, limitando a recuperação financeira dos produtores locais.
Margens e endividamento: A soja brasileira projeta margem operacional de 38%, mas a taxa de inadimplência no campo ultrapassa 8% devido aos juros altos.
O levantamento do Rabobank alerta para a retomada na alta dos custos de produção, impulsionada pelo encarecimento dos fertilizantes e defensivos agrícolas. A cultura do milho sofre o maior impacto das revisões orçamentárias no Brasil, com projeção de elevação de 11% nos custos operacionais para 2027, atingindo a média de US$ 820 por hectare.
A escalada nos custos do cereal é puxada pelo salto nos gastos com defensivos agrícolas, que sobem 35% no país e chegam a US$ 131 por hectare. Os fertilizantes para o milho registram alta de 10%, alcançando US$ 248 por hectare. Na cultura da soja, os desembolsos com adubação sobem para US$ 290 por hectare, enquanto os defensivos passam a consumir US$ 301 por hectare no ciclo 2026/27.
As tensões geopolíticas no Oriente Médio e as restrições à exportação de fosfatados aplicadas pela China sustentam a elevação nos preços globais da ureia, do fosfato monoamônico e do fosfato diamônico. Essas oscilações no mercado internacional repercutem diretamente nas tabelas de preços praticadas pelas distribuidoras de insumos no mercado nacional.
Custo do milho em alta: Os gastos com defensivos no cultivo de milho sobem 35% no Brasil, elevando o custo operacional total para US$ 820 por hectare.
A evolução do clima global adiciona incerteza sobre o comportamento dos preços das commodities agrícolas até o primeiro semestre de 2027. O Centro de Previsão Climática do governo norte-americano confirma a presença do fenômeno El Niño com probabilidade de permanência até meados de 2027, elevando o risco de instabilidades pluviométricas nas principais regiões produtoras do Sul e Centro-Oeste.
Apesar de a produção global de grãos e oleaginosas figurar entre os maiores volumes da história recente, o Rabobank destaca a redução progressiva na relação estoque-consumo do milho. A combinação de estoques globais ajustados e incertezas climáticas pode gerar picos temporários de valorização nas bolsas de mercadorias.
Analistas da instituição financeira orientam os produtores brasileiros a utilizarem esses momentos de volatilidade para travar custos de produção e fixar margens de comercialização em níveis superiores ao ponto de equilíbrio.
A liquidez no mercado de insumos e as taxas de juros no crédito rural permanecem como os indicadores centrais para o planejamento do custeio da safra brasileira no decorrer de 2027.