O seguro está ‘quase’ morrendo de velho
Publicado em 10/09/2026 15h15

O seguro está ‘quase’ morrendo de velho

Se você ainda acha que seguro é só papelada chata, prepare-se: o ESG está transformando o setor em peça-chave da confiança empresarial e pessoal.
Por: Kátya O. Desessards

ESG no setor de seguros ganha protagonismo e expõe a falta de consciência brasileira

Antes de iniciar este artigo trago uma reflexão. Uma frase extraída de uma das obras mais ácidas, irônicas e atuais da literatura brasileira — Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; que entendo dialogar de forma direta um tipo de cegueira de alguns líderes perante o futuro e a ironia do pensamento recorrente de "nunca vai acontecer comigo": "Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho."

Guarde essa reflexão…

Vamos lá! Aconteceu em Esteio/RS, a 49ª Expointer (29/8 a 6/9), e quem me conhece sabe que é uma das feiras do agro que mais gosto… aliás, adoro. Lá visito amigos queridos, clientes e ex-clientes que viraram amigos. E foi onde me instigaram a fazer um artigo sobre o ESG no mercado de seguros. Meu amigo Marcos, dono de uma grande agroindústria - leitor assíduo, crítico do bem e fã - mostrou-me um cenário que não imaginava ser tão sensível…  

E para entrar nesse ‘universo’ vou precisar reiterar algumas afirmações…

Parece que estou me repetindo… Verdade!?

Claro… Reeducar quem já vem com preconceitos arraigados por anos, não é fácil e nem sorte. Todo o professor sabe como é essa ‘saga’ e vai me dar razão. É um trabalho árduo que, na grande maioria das vezes, não é percebido.

Então…lá vou eu DE NOVO!

Se você acha que ESG (Ambiental, Social e Governança) é só um selo bonitinho para colocar no relatório anual e fazer o departamento de marketing sorrir, eu tenho uma péssima notícia.

Enquanto você discute se deve ou não usar canudo de papel na copa da diretoria, o mercado de seguros — que é, por definição, o termômetro de sobrevivência de qualquer negócio — está recalculando a rota. E o preço de continuar ignorando essa nova dinâmica do mercado vai custar caro. Aliás, já está custando em real, dólar, euro, etc.

Como mentora e conselheira ESG de empresas, meu papel não é passar a mão na sua cabeça. É trazer a realidade técnica com a dose de pragmatismo que o seu negócio ou conselho de administração precisa ouvir. E a realidade nua e crua é a seguinte: quem não souber ler os novos dados contratuais e regulatórios do setor de seguros vai, simplesmente, ficar sem cobertura. Drástico!? Ainda não, mas pode virar.

Vou desenhar o cenário atual, analisar os números para você entender como essa engrenagem está funcionando na prática, sem o romantismo das cartilhas corporativas. Isso não é dado ou viés para ser tratado como perfumaria para campanha de marketing.

Cenário em 2026: O mercado não espera pelos céticos  

Se em 2025 a economia brasileira avançou em ritmo moderado — com o PIB registrando expansão de 1,8% —, o ano de 2026 sinaliza uma acomodação no crescimento do setor de seguros após ciclos de expansão em duplo dígito. As projeções consolidadas da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) estimam uma alta nominal mais branda, de 5,7%, que deve levar o setor a movimentar R$ 808 bilhões ao considerar a soma dos ramos tradicionais com a Saúde Suplementar.

E por que esse salto aconteceu - justamente - em um momento macroeconômico desafiador, com Selic na casa dos 12,5% e projeções de PIB modestas? A resposta está na dor. O aumento drástico de eventos climáticos extremos e a necessidade de blindagem jurídica forçaram corporações e indivíduos a buscarem proteção. O destaque ficou com os seguros de danos e os seguros de pessoas (o seguro de vida, por exemplo, registrou alta real e consistente à medida que a percepção de risco familiar mudou).  

O que esperar de 2027?

As perspectivas para o ano de 2027 indicam que a curva de crescimento continuará ascendente, mas com um detalhe cruel para os desavisados: a seletividade. As seguradoras e resseguradoras, munidas de dados climáticos hiper-sofisticados, vão cobrar muito mais caro — ou simplesmente recusar — apólices de empresas que tenham uma governança frágil ou ativos - excessivamente - expostos a riscos socioambientais. Em 2027, o ESG deixará de ser um diferencial de pontuação para se tornar o filtro definitivo de aceitação de risco. E isso muda as abordagens, critérios, as escalas de relevância das abrangências e indicadores.

A regulação deixou de ser "Recomendação": A consolidação da Circular Susep 666  

Para os gestores que adoram dizer que "no Brasil a regra não pega", um banho de água fria com gelo trazido diretamente pelo marco regulatório da Superintendência de Seguros Privados (Susep). A famosa Circular Susep nº 666 mudou completamente o jogo.

A norma estabeleceu obrigações rígidas e escalonadas para as seguradoras e resseguradores locais. Mas o que ela está exigindo? Muitos critérios novos…

  • Política de Sustentabilidade: Documentada, ativa e fiscalizada pela alta governança nas grandes empresas; e baseada na longevidade de certificações para médias e pequenas empresas.  

  • Gestão de Riscos de Sustentabilidade: A obrigatoriedade de incluir fatores ambientais, sociais e climáticos na precificação e na subscrição de riscos.  

  • Estudo de Materialidade: Identificar o impacto financeiro real que as mudanças climáticas causam no portfólio das empresas (de todos os tamanhos).

Sabe o que isso significa na prática da sua gestão? A seguradora agora é obrigada por lei a auditar a sua empresa antes de fechar o contrato. Se a sua indústria polui, se o seu comércio descumpre regras trabalhistas básicas (o "S" do ESG), ou se a sua governança é uma colcha de retalhos familiar sem auditoria (o "G"), a seguradora vai jogar o seu prêmio nas alturas para se proteger. A regulação da Susep transformou o ESG em matemática financeira pura.

Aplicabilidade nos Setores: O ESG não escolhe CNPJ. Entenda isso - por favor - de uma vez por todas.

Vamos sair da teoria acadêmica e ir para o chão de fábrica, para o balcão e para as fazendas. Como o ESG entra nos diferentes ramos de mercado para torná-los mais confiáveis?

No coração industrial do país, uma grande metalúrgica em São Paulo precisava renovar seu seguro de responsabilidade civil e patrimonial. Antigamente, bastava apresentar a planta do imóvel e o sistema de incêndio. Hoje, a seguradora exige o inventário de emissões de carbono e o plano de gestão de resíduos sólidos. "A lógica mudou. Ou provamos que nossa operação mitiga riscos ambientais, ou o custo da apólice inviabilizaria nossa margem de lucro. O seguro virou o auditor do nosso compliance", afirma Roberto Albuquerque, diretor executivo de uma indústria paulista.

O Agro é onde o "E" do ESG dói mais rápido. No Rio Grande do Sul, assolado por instabilidades climáticas históricas e secas severas seguidas de enchentes, o seguro agrícola tradicional focado apenas no histórico de safra faliu. Agora, ferramentas como a solução de Conformidade Socioambiental da CNseg cruzam dados públicos para verificar se o produtor respeita áreas de preservação e usa técnicas de manejo sustentável.

Os gaúchos possuem bons exemplos positivos de produtores de grandes extensões que, há 4 décadas, atuam com plantio direto mas usam o Modelo de Agricultura Regenerativa e, também, com a Integração Lavoura-pecuária, que diminui o uso de insumos de regulação do solo pois, o processo usado mantém a qualidade natural do solo. E o mais importante, não usa irrigação, pois aqui o produtor investe no manejo como a ‘estrela’ das suas boas práticas. Exatamente, como faz a Sementes Com Vigor, na Fazenda Santo Amaro, nos Campos De Cima da Serra, em Muitos Capões/RS. Há mais de 50 anos, essa sementeira vêm aprimorando esse manejo e com seca, geada e chuva excessiva, eles têm conseguido manter um nível elogiável e ‘invejável’ de resiliência nos cultivos de soja, trigo, aveia, ervilha, etc.

E no Mato Grosso do Sul, o cenário se repete com o foco voltado para a governança e proteção da biodiversidade no Pantanal e no Cerrado. Produtores que adotam práticas de agricultura de baixo carbono conseguem taxas de seguro rural consideravelmente menores. "Quem faz o dever de casa ambiental tem crédito e tem seguro. Quem desmata ilegalmente ou ignora a transição climática está operando a descoberto, contando com a sorte", relata o produtor rural sul-mato-grossense Ricardo Bastos.

No setor de Comércio e Serviço o jogo também mudou. Por exemplo, uma grande rede de varejo com centros de distribuição instalados em vários estados do Nordeste, percebeu que o pilar "S" (Social) e o "G" (Governança) pesam tanto quanto o ambiental nos seus processos diários. Ao estruturar sua carteira de seguros para a sua frota de distribuição e dos canais digitais, as políticas de diversidade, de canais de denúncia antifraude e de proteção de dados dos clientes (LGPD), foram exigidos pelas seguradoras para reduzir o risco de processos e crises de reputação.

Outro exemplo que trago é o do setor da Infraestrutura e Logística. Grandes obras de infraestrutura e cadeias de escoamento de grãos e minérios no Centro-Oeste e do Norte do Brasil enfrentam análises rigorosas de impacto em comunidades tradicionais. O seguro que garantia grandes obras, agora avalia - detalhadamente - o risco de paralisações por conflitos sociais, uma novidade. Se a governança do projeto ignora as contrapartidas sociais, o seguro, simplesmente, não sai do papel, travando o financiamento bancário e bagunçando o cronograma da obra.

Mas também é preciso avaliar essa ‘conta’ para além das empresas. Você pode estar pensando: "Ok, Kátya, eu entendi o lado das grandes corporações, mas e a dona de casa ou o motorista de aplicativo, como ficam nessa equação?"

O que tenho constatado é que o ESG melhora o setor de seguros para o indivíduo ao trazer transparência e personalização. O "G" da governança nas seguradoras garante que os contratos sejam mais didáticos, reduzindo aquelas letras miúdas que todo mundo odeia e que costumavam gerar fraudes ou negativas de pagamento. 

No seguro automotivo, por exemplo, empresas já oferecem descontos reais para quem dirige carros híbridos/elétricos ou possui um comportamento de direção defensiva monitorado por aplicativos (unindo o ambiental ao impacto social de redução de acidentes nas vias urbanas). Há muitos benefícios versus os ônus.

O Abismo Cultural: Brasil versus o resto do mundo

Agora, permita-me um leve momento de ironia construtiva. O empresário brasileiro médio adora viajar para a Europa ou para os Estados Unidos, tirar fotos em distritos financeiros e elogiar a estabilidade econômica desses lugares. Mas na hora de gerir o próprio negócio no Brasil, adota a máxima do "Deus me livre, quem me dera" e deixa o gerenciamento de riscos nas mãos da providência divina. Não faz sentido!

Nos Estados Unidos e na Europa, o seguro não é visto como uma despesa chata que você compra torcendo para não usar; ele é a base de sustentação da cultura econômica. Ninguém compra uma bicicleta, abre uma portinha de comércio ou inicia um planejamento familiar sem mapear e transferir os riscos para uma apólice. A cultura de aceitação é absoluta. Se há um risco, há um seguro precificando esse risco.

Quando olhamos para a América Latina, países como o Chile e a Colômbia já demonstram um nível de consciência de risco patrimonial e catastrófico bem superior ao nosso, devido ao histórico de terremotos e eventos geológicos.

E no Brasil? Ah, o Brasil... Aqui vigora a perigosa cultura do "nunca vai acontecer comigo". Menos de 30% da frota de veículos do país é segurada, e uma parcela minúscula das pequenas e médias empresas possui coberturas adequadas contra incêndio, lucros cessantes ou responsabilidade civil.

O brasileiro prefere assumir o risco de perder todo o patrimônio de uma vida a gastar uma fração anual para protegê-lo através de uma gestão financeira eficiente. É um amadorismo corporativo que o novo mercado de 2027 não vai tolerar mais.

“Aaaaaa Kátya, isso é muito alarmismo”, já me falaram - exatamente assim - quando estava realizando mentorias e aconselhamentos a empresas e entidades. Em situações assim, sinto-me um completo ‘Ser invisível’... pois, você vai lá, prepara pesquisas complexas do negócio ou setor, monta materiais técnicos e dinâmicas e, no final, com esse tipo de ‘frase de fechamento’... colocam TUDO - literalmente - por água abaixo. Sim! Porque, qual foi o efeito real de todo o trabalho no Mindset?? Na mentalidade?? Qual? Acho que nenhum. E eu é que sou ‘alarmista'!?!?

Essa realidade é a mesma que um grupo grande de colegas que atuam com ESG e de profissionais da área de Seguros. A mentalidade cultural no Brasil é de que o vendedor de seguros ou o profissional de ESG quer só ‘tirar’ seu dinheiro ou de que isso é custo, despesa ou prejuízo… Isto é - justamente - o CONTRÁRIO.

Mas vamos um pouco mais profundo nesse cenário…

Qual o papel dos governos? Parcerias públicas e mitigação.

Os governos também entraram na rota da necessidade. Diante de orçamentos públicos cada vez mais estrangulados por desastres climáticos e reconstrução de infraestruturas, a gestão pública vem descobrindo, ou ainda vai descobrir, que o setor de seguros é seu maior aliado.

Governos estaduais e municipais inteligentes estão contratando seguros paramétricos (aqueles disparados automaticamente quando um índice climático, como o volume de chuva, ultrapassa o limite), para garantir verba imediata para a população afetada, sem depender da lentidão da burocracia estatal. O ESG leva a obrigatoriedade de o governo ser mais eficiente na governança de crises. Claro, que isso ainda é uma lenta caminhada no Brasil… Mas vejamos pela ótica otimista, há aqui um mercado quase ‘virgem’ a ser construído e desenvolvido. Ou seja, OPORTUNIDADE.

E qual o próximo passo?

Bom, ‘fechar os olhos’ está fora de questão. Ignorar a fusão entre ESG e o mercado de Seguros não é mais uma postura rebelde ou "conservadora"; é incompetência de gestão. Pronto falei! Se a empresa quer ser relevante, confiável e, acima de tudo, financeiramente viável nos próximos anos, a análise de risco precisa subir para a mesa do conselho de administração nas grandes empresas e para o processo contínuo da gestão das startups e de pequenas e médias empresas, hoje, não amanhã.

Trago uma fala do livro O Alienista, de Machado de Assis, que gosto muito, para ajudar nessa reflexão…

"A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia."  

Não espere a sua apólice ser cancelada ou o seu prêmio triplicar de preço para descobrir que a sustentabilidade e a governança corporativa tinham tudo a ver com o seu fluxo de caixa. O assunto não se esgota aqui! Há uma infinidade de nuances que voltarei a trazer, mas por hora…

Reflita! Busque dados e informações sobre seu setor e as implicações - reais - que podem dificultar sua relação com o mercado e a concorrência. Entenda, ESG e o mercado de seguros já estão em simbiose…ontem, e hoje já estamos em processo de mitigar o tempo perdido. E amanhã, tudo pode sair mais caro.

Integrar as dimensões ambiental, social e de governança deixa de ser um diferencial competitivo para se tornar o próprio fundamento do mercado segurador. Ao mitigar riscos climáticos, promover a proteção social e consolidar uma conduta corporativa ética, o setor reafirma seu compromisso com a longevidade da sociedade. 

Afinal…  seguro deixou de ser apenas proteção financeira e se tornou auditor de compliance e sustentabilidade.

Assim como definiu o filósofo Hans Jonas, de que devemos: "agir de tal modo que os efeitos da nossa ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica na Terra". 

E viável, digo eu!

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Kátya O. Desessards | Conselheira e Mentora em ESG e Comunicação Estratégica. 

Integra o Institute On Life e a Consultoria Vantwork

Co-Autora no livro: Gestão! Como Evoluir em uma Nova Realidade?

Experiência de 28 anos em diversos setores do mercado.

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Dúvidas & Sugestões sobre ESG:  katya.desessards@instituteon.life