Cronobiologia na gestão de pessoas
Publicado em 06/08/2026 07h40

Cronobiologia na gestão de pessoas

ESG como métrica ética em tempos de escassez de talentos, nunca fez tanto sentido. Com 80% das empresas brasileiras enfrentando falta de mão de obra qualificada, práticas inovadoras de gestão e comunicação positiva tornam-se urgência estratégica para 2027.
Por: Kátya Desessards

Conexão para despertar consciência, ação e construir o futuro

No artigo anterior, trouxe a neurociência como ferramenta, conhecimento e postura para formar e conduzir pessoas dentro e fora das empresas. Agora, retorno com o tema nessa - Parte 2 - por sugestão de leitores. Foram e-mails e mensagens no meu WhatsApp, com dúvidas e, principalmente, o que mais ADORO: histórias, cases de experiências boas e ruins. Isso é uma felicidade, uma honra despertar gestores e empresários (que não me conhecem) confiarem, a mim, suas dores e realidades. Muito Honrada! 

E para começar a desfiar os 'fios' dessa - Parte 2 - trago junto ao ESG mais conceitos e aplicabilidades da Neurociência com a Cronobiologia, com mais detalhes e exemplos ... 

Como fazer pessoas - de funcionários a gestores - entenderem a importância do ESG? Comece a entender de PESSOAS e, principalmente, da nossa biologia, para entender a cronobiologia que influencia no nosso comportamento e desempenho profissional. Isso é a ponte para estreitar a distância entre o entender e o compreender que, podem parecer iguais, mas, na vida real, se mostram a léguas de distância do nosso dia a dia. 

Com a Normativa NR-1 já em vigor, adaptação não é mais uma opção. Simples assim. E por quê!? Com essa 1ª Regra Regulamentadora de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) do Brasil, ela estabelece as disposições gerais, o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e a (total) obrigatoriedade de as empresas implantarem um Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Ou seja, a Gestão de Pessoas, ganhou mais limites, processos, camadas diretivas e interfaces estratégicas.

E a neurociência pode ser aliada estratégica para gestores entenderem Ser Biológico que somos e Eles também. O que parece ser uma dicotomia. Pois, afinal, somos todos humanos. Mas, até pouco tempo, a Gestão vinha ‘esquecendo’ desse ‘pequeno’ detalhe sobre Pessoas. Piadas a parte, a verdade é que muitos – ainda hoje, tem certeza de que seus funcionários são ‘robôs’ programáveis.

Alguma surpresa!? Sim. Não. Talvez”!?!? Entenda. Somos seres totalmente ‘biológicos’, que influenciam e são influenciáveis pelo seu ambiente e pelos grupos que integramos.

Eu e você, somos o reflexo das nossas funções e disfunções biológicas silenciosas que acometem nosso organismo e que refletem - diretamente - no nosso humor, na nossa capacidade de decisão e de como nos relacionamos com outras pessoas. 

Uma prática simples, chamada de Cronoworking, traz esse cuidado estratégico para a Gestão de Pessoas. E por quê? Pois mapeia as pessoas de forma individual, respeitando o seu ritmo biológico circadiano, ou seja, esse modelo de trabalho adapta a jornada profissional ao relógio biológico e ao ciclo circadiano de cada indivíduo. E, assim, permite o cumprimento de tarefas nos horários de maior energia e foco de cada profissional.

Mas, esta é uma prática ainda distante de ser uma rotina nas empresas brasileiras. E, um dos grandes empecilhos, é a própria legislação trabalhista que não entende como regra plausível o uso de neurociência e do Modelo Cronoworking, e limita como exercício ‘normal’ de um dia de trabalho, das 6h às 18h. Ou seja, qualquer horário fora desse ‘Muro de Berlim’, é entendido como hora extra, trabalho noturno ou ‘insalubre’. Mesmo que a criação de novos formatos de horário de trabalho seja benéfica a todos os grupos cronobiológicos, ainda assim, não se consegue brecha para a abertura para esse diálogo.

É um debate que ainda não está sendo feito de forma profissional em lugar algum da estrutura política no Congresso Nacional (Senado e Câmera dos Deputados), nem passando perto das entidades empresariais e de trabalhadores, e muito menos na gestão pública. Continuar com a visão míope e manter a forma ‘cartesiana’ de fazer as coisas, nos tira o direito de falar sobre ‘inovação real’.

Pense. Por que a inovação é aplicável apenas a ‘coisas’ e não a Pessoas!? Mudar processos e implantar novas tecnologias, nada tem a ver com pessoas – exatamente -, mas, com uma forma diferente de fazer o ‘operacional’ das coisas. E isso não é ...’Papo de Louco’. É a realidade hoje. O consolo é que temos alguns esforços sendo aplicados por algumas empresas, e devemos dar celeridade a isso, mesmo que não tenha a ver com o respeito ao cronotipo, mas, com dar algum tipo de FOCO para Pessoas...

Veja exemplos reais de empresas que agiram de alguma forma e colhem bons resultados práticos: 

- O Souto Correa Advogados, escritório de médio porte com sede em São Paulo, reorganizou agendas e práticas de gestão para reduzir estresse e melhorar a performance de seus advogados. 

- A rede gaúcha de comércio varejista Lojas Lebes, reconhecida pela ABRH-RS com o prêmio Top Ser Humano por suas práticas de gestão de pessoas e gamificação, ajustou turnos e treinamentos para melhorar resultados. 

- A Tramontina, indústria, com sede em Carlos Barbosa/RS, que investe fortemente em ergonomia e bem-estar dos colaboradores, mostrou como cuidar da saúde no trabalho e aumentar a produtividade e engajamento. 

- A cooperativa Cotrijal, de Não-Me-Toque/RS, vencedora do prêmio Top Ser Humano 2025 pela ABRH-RS, fortaleceu sua gestão de pessoas com programas de desenvolvimento humano e organizacional. 

- A catarinense Deep Logística, com sede em Itajaí, criou e implantou, este ano, o programa “Poder Logístico Feminino”, promovendo inclusão de mulheres em operações pesadas de empilhadeiras e quebrando paradigmas no setor. 

- E o Grupo Fleury, localizado no bairro Brooklin, Zona Sul da Capital paulista, foi reconhecido como empresa do Ano em ESG em 2026, por – entre vários projetos - ampliar atendimento para mais de 1,8 milhão de pessoas das classes C, D e E sem plano de saúde, integrando metas socioambientais ao modelo de negócio. 

Práticas para conectar 

Empatia pode ser treinada e isso é – de fato – um primeiro grande passo para as empresas iniciarem a grande mudança de olharem primeiro para o seu ADITVO Humano, e depois construir estratégias de mercado que foquem em manter talentos e não perderem sua capacidade de competição no mercado. Qualquer ação e estratégia começa e termina ‘com e para’ PESSOAS; mesmo num processo produtivo totalmente automatizado, sempre haver um ‘Ser Vivo Humano’ envolvido.

Então, por mais máquinas que se tenha, o cuidado, a manutenção, a observância dos processos, a qualificação sistemática, a negociação e o consumo de produtos e serviços, SEMPRE estarão na ‘Equação de Pessoas para Pessoas’. Mesmo as mais avançadas Inteligências Artificiais (A.I.), saíram da cabeça de humanos. E, mesmo que hoje, haja experimentos e pesquisas que buscam uma interface entre o biológico e o virtual, ainda assim, sempre há um botão de liga e desliga. Fato.

Constatação: a nossa maior capacidade de transformação é por meio do exercício diário de nossa HUMANIDADE.

 Sendo assim, busque aprimorar as suas melhores capacidades e de seus colegas e/ou funcionários. Incentive líderes a se colocarem no lugar da comunidade e dos stakeholders. Isso, é para início do que chamo de Terapia de Novas Ações. Trago algumas praticas que uso nas minhas mentorias: 

1. EDUCAR COM EMOÇÃO E CIÊNCIA: Apresento ESG como uma jornada de transformação, não como uma obrigação. Uso dados e técnicas, mas também histórias reais para fazer sentido às pessoas e aproximá-las. 

2. CRIAR EXPERIÊNCIAS SENSORIAIS: Monto workshops, dinâmicas com jogos que ativam o cérebro de forma mais profunda, além do uso de slides. 

3. MOSTRAR O IMPACTO PESSOAL: Isso ajuda cada pessoa a enxergar como o ESG afeta sua vida, sua família, a empresa que trabalha e o seu futuro. 

4. FORTALECER LÍDERES PARA SEREM ESPELHOS: Quando o board prática ESG com autenticidade, o cérebro dos colaboradores tende a imitar esse padrão - é o chamado "efeito espelho". 

Comunicação Positiva como ponte  e fluxo

Comunicar com empatia não é ser um "pirilampo alegre e saltitante". O ser biológico oscila, e tudo bem. Lembre, o que falei no artigo anterior: "O cérebro humano responde melhor a estímulos emocionais e significativos". Isso significa que líderes que comunicam com empatia tendo um propósito CLARO, ativam áreas cerebrais ligadas a confiança e a cooperação. Ser enfático não é ser bruto, é ser firme, se mostrar confiável e acessível.

DICA: Observe tom de voz e postura corporal. Pequenos ajustes podem transformar resultados. 

A motivação está diretamente ligada a dopamina, neurotransmissor que regula prazer e expectativa. Quando colaboradores sentem que fazem parte de algo maior, o engajamento aumenta. 

No entanto, campanhas de "engajamento" não podem ser só marketing interno. Atenção: se não forem consequência de ações reais, viram palavras ao vento. E para facilitar a compreensão, trago reforços poderosos de autores que pensaram profundamente sobre esse tipo de comunicação e seus EFEITOS. Não concordo plenamente com o conjunto da obra de alguns que cito abaixo, mas parto do princípio de que ninguém está totalmente Certo ou Errado. As frases podem ajudar você a perceber como o Ato de Comunicar melhor, atua para mudarmos o que é necessário nas nossas ações: 

- Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, nos lembra: “A comunicação é a principal via para resolver conflitos.” 

- Peter Drucker, o pai da administração moderna, reforça: “O mais importante na comunicação é ouvir o que não foi dito.” 

- Marshall McLuhan, filósofo e pensador da comunicação de massa, nos provoca: “O meio é a mensagem.” 

Essas frases se encaixam na lógica que trago: Comunicação Positiva não é sobre slogans, mas sobre criar confiança, resolver conflitos e gerar pertencimento real. Isso é ‘Código do DNA’ da Mudança. Mas sempre cuidando a FORMA dessa expressão, pois como sempre enfatizou McLuhan: “A forma como um meio transmite algo afeta a sociedade mais do que o conteúdo em si”. Muito intrigante essa frase, pois foi muito antes da existência da Internet e das redes sociais. (Mas é assunto para um artigo inteiro) Seguimos...

O desafio da mão de obra: o 2º problema na Gestão Pessoas 

E se não bastasse essas questões internas nas empresas ... Agora, está muito difícil contratar. Faltam trabalhadores. É um momento insano do mercado. E mesmo com a disposição das empresas em investir na formação, as vagas não são preenchidas. Por quê? Pesquisas mostram esse cenário:

No início de 2025, uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) já mostrava que 65% das empresas brasileiras relatam dificuldade em contratar mão de obra qualificada, especialmente nos setores de indústria, construção civil e comércio.  Em setembro de 2025, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS) divulgou que 85,5% das indústrias gaúchas sofrem com falta de profissionais qualificados. 

Este ano, o cenário não melhorou. Segundo o ManpowerGroup, em 2026, 80% dos empregadores brasileiros continuam enfrentando escassez de talentos, acima da média global de 72%. São Paulo lidera com 88% de dificuldade. As áreas mais críticas são TI, serviços técnicos e logística. 

E a perspectiva que se anuncia para 2027, é ainda mais desafiadora.

O Brasil precisará qualificar mais de 14 milhões de trabalhadores até final de 2027. O mercado de TI deve crescer acima dos 13%, a energia renovável expandirá com solar e eólica, e a saúde digital ganhará escala nacional com a telemedicina. Mas atenção: 42% das tarefas serão automatizadas e 50% dos profissionais precisarão se reciclar pra acompanhar esses novos processos. 

Pessoas são... o problema e a solução! 

Tudo começa e termina em pessoas. Elas criam os problemas, mas também são a fonte da solução. O momento é de separar o joio do trigo: valorizar profissionais que querem evoluir e parar de investir em perfis de "modinha"

(LEIA-SE: aquela Pessoa que não demonstra qualquer vontade de expressar respeito por regras ou lideranças. Quer direitos, mas sem ter a obrigatoriedade de deveres). 

... Oi !!! E que fique muito claro que não falo dos profissionais com alguma condição como o autismo, por exemplo. Pois estes, são ótimos funcionários. Cumprem regras e prazos. Aliás, PRECISAM de rotinas claras e definidas. Podem até terem certa dificuldade com mudanças repentinas, mas, se fizer lógica no resultado final, isso será superado e entendido. Isso eu afirmo! Sei como é, e como funciona, pois sou autista, descoberta aos 53 anos.

A neurociência é ferramenta poderosa para seleção, formação e condução. Mas não há mágica: é preciso pacto sincero entre pessoas e empresas. Com tanta ciência, tecnologia e processos disponíveis, por que parece que as coisas só pioram? Essa é a pergunta de milhões. 

Mas, não é terra arrasada!!! Há muitas empresas fazendo o certo, buscando evolução e crescimento real. Porque mais do que prêmios e aparências, existem pessoas e empresas que se importam. Querem evoluir, crescer e seguir existindo. É errando que se acerta. É admitindo que se erra, que crescemos.

E como já virou ‘tradição’, fecho o artigo dessa semana com uma Frase do meu - poetinha preferido – Mário Quintana, do livro ‘A Cor do Invisível’, de 1989, para você refletir sobre o que – realmente – é importante dar Valor e Tempo na sua Vida:

“O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.”

 E aí... vais aceitar o tempo? Ou vai brigar com ele!?

 

-----------------------------

KÁTYA DESESSARDS | Conselheira e Mentora em ESG e Comunicação Estratégica. Integra o Institute On Life e a Consultoria Vantwork - Co-Autora no livro: Gestão! Como Evoluir em uma Nova Realidade?   Experiência de 28 anos em diversos setores do mercado.  |  Quer Saber Mais?  CLICK AQUI

Dúvidas & Sugestões:  katya.desessards@instituteon.life