Garantias com terras expõem limites do crédito rural
Publicado em 30/07/2026 02h15

Garantias com terras expõem limites do crédito rural

O problema aparece quando o produtor não consegue honrar o compromisso.
Por: Leonardo Gottems

O avanço das garantias imobiliárias no crédito rural tem ampliado o risco de instituições financeiras assumirem propriedades em situações de inadimplência. A avaliação é de Felipe Treitinger, CEO e fundador da Cumbre, que chama atenção para o descompasso entre a função dos bancos e a posse de terras.

Com o crédito mais caro, escasso e seletivo, muitas operações passaram a exigir a alienação fiduciária do imóvel rural. Em geral, o financiamento cobre algo entre 40% e 50% do valor da propriedade, o que oferece uma garantia considerada sólida para reduzir o risco da instituição.

O problema aparece quando o produtor não consegue honrar o compromisso. Nesse cenário, ele perde patrimônio, enquanto o banco recebe uma terra quando, na prática, precisava receber dinheiro. Embora o imóvel possa ter valor, ele não gera liquidez imediata, não remunera investidores no curto prazo e costuma ficar fora da atividade principal da maior parte das instituições financeiras.

Há exceções entre grupos que possuem uma estratégia imobiliária definida e aceitam carregar ativos rurais por alguns anos, apostando em um novo ciclo de valorização. Essa, porém, não parece ser a lógica predominante no mercado.

Para Treitinger, o cenário indica que o desafio do agronegócio pode ter deixado de ser apenas aumentar a produção. A questão passa também pela construção de modelos financeiros mais compatíveis com uma atividade exposta diariamente a clima, câmbio, juros, preços internacionais e ciclos de commodities. Na visão apresentada, o crédito saudável é aquele que preserva a capacidade de produção no campo e mantém o banco concentrado em sua função principal.