Chuva em dobro no Sul de Minas trava colheita de café em 97% das áreas
Publicado em 09/07/2026 10h38

Chuva em dobro no Sul de Minas trava colheita de café em 97% das áreas

Em julho de 2026, chuvas atípicas no Sul de Minas Gerais atrasaram a colheita de café, atingindo apenas 30% da safra devido ao dobro de precipitações.
Por: Wisley Torales

As precipitações atípicas que atingiram as principais regiões produtoras de café em Minas Gerais alteraram o cronograma das fazendas, trazendo apreensão aos produtores. O volume de água comprometeu o andamento das colheitadeiras e a secagem dos grãos nos terreiros, modificando as estimativas de rendimento inicial para este segundo semestre.

De acordo com a Fundação Procafé, o Sul de Minas acumulou os maiores desvios meteorológicos. O município de Varginha registrou 64 milímetros de chuva ao longo de junho de 2026, marca que representa o dobro da média histórica de 32,4 milímetros calculada desde 1974.

Essa umidade excessiva desestabilizou o ritmo operacional do campo, forçando interrupções prolongadas. Um levantamento detalhado realizado pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Sistema FAEMG) avaliou os impactos através de consultas com 32 técnicos de campo do Programa ATeG.

Abrangência do monitoramento: O corpo técnico consultado pela federação responde pelo acompanhamento gerencial diário de aproximadamente 900 propriedades cafeeiras distribuídas entre os municípios do Sul de Minas e em faixas do Centro-Oeste do estado.

Os relatórios indicam que o cenário de atraso ou paralisação estende-se por 97% de todas as fazendas monitoradas. A severidade das interrupções variou conforme a topografia das propriedades, atingindo tanto pequenos produtores familiares quanto as grandes áreas mecanizadas.

A análise estatística das paradas mostra que em 47% das propriedades o bloqueio dos trabalhos durou até dez dias. Em outros 43% dos casos mapeados, as equipes suspenderam as atividades por até cinco dias, enquanto um grupo de 9% das fazendas enfrentou paralisações severas que ultrapassaram a marca de dez dias.

Como reflexo dessas condições climáticas, o progresso da colheita atingiu somente 30% da área total projetada no início de julho. O indicador expõe um descompasso frente ao histórico recente do setor, limitando a oferta de grãos novos para o abastecimento das cooperativas de exportação neste mês.

Ritmo comparativo das safras: O índice de 30% apurado no início de julho mostra-se inferior ao desempenho verificado no mesmo período da safra passada, momento em que os produtores mineiros já haviam concluído 52% dos trabalhos de recolhimento.

Consequências agronômicas e qualidade do grão

As perdas decorrentes do excesso de umidade avançam além do atraso cronológico, afetando diretamente a fisiologia das plantas e a classificação comercial. Os técnicos relatam que a água frequente provocou uma abertura precoce de gemas florais em pelo menos 213 propriedades monitoradas pelo programa de assistência.

Essa floração temporã preocupa os cafeicultores porque desregula o ciclo natural da lavoura para a próxima temporada, gerando grãos com diferentes estágios de maturação. O aparecimento dessas flores exige um manejo nutricional específico para evitar o abortamento de estruturas e assegurar o potencial das plantas para o ano subsequente.

Outro ponto de atenção reside na depreciação da qualidade da bebida provocada pela permanência dos frutos maduros no chão úmido ou na própria árvore. A umidade acelera os processos de fermentação indesejada, elevando a incidência de grãos ardidos e pretos, defeitos que reduzem o valor pago pelos exportadores na classificação final.

Os cafeicultores intensificam o uso de secadores mecânicos nas propriedades para tentar conter a perda de qualidade do café que chega molhado das lavouras. O processo eleva o consumo de energia e combustível nas fazendas, encarecendo o custo operacional de produção em um cenário de margens estreitas.

As cooperativas da região reorganizam o recebimento de cargas para evitar filas nas estruturas de armazenagem, adequando o fluxo de descarga ao ritmo paulatino determinado pelas condições meteorológicas locais.