O encerramento do primeiro semestre abre espaço para análises macroeconômicas complexas no ambiente produtivo nacional. Os planejamentos das fazendas brasileiras para o ciclo 2026/2027 passam a incorporar novas variáveis externas, que combinam instabilidades geopolíticas com o redesenho das políticas monetárias nas grandes potências mundiais.
Nesse ambiente de volatilidade, a consultoria StoneX divulgou na terça-feira (7) a 36ª edição do seu Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities. O documento consolida as projeções de oferta, demanda e oscilações financeiras para o terceiro trimestre de 2026, apontando os principais vetores que devem influenciar as margens operacionais dos produtores de grãos e carnes no Brasil.
A engenharia de preços do período será ditada por três frentes simultâneas de alta relevância: a evolução dos confrontos armados no Oriente Médio, a permanência de taxas de juros restritivas nos mercados internacionais e a consolidação de um padrão climático El Niño de forte intensidade. O conjunto dessas forças atua diretamente nos custos logísticos e na competitividade dos embarques portuários.
Para o segmento de grãos e oleaginosas, o levantamento aponta que o quadro de abastecimento doméstico e global apresenta condições confortáveis no curto prazo. Contudo, esse panorama não elimina os fatores de risco que começam a se desenhar para o fechamento da safra norte-americana, que dita o balizamento de preços na Bolsa de Chicago.
Ondas de calor intenso registradas no início do verão nos Estados Unidos e em faixas produtoras da Europa geram preocupação sobre o rendimento das lavouras de soja e milho. As intempéries coincidem com fases reprodutivas sensíveis, o que pode motivar revisões nos estoques finais e dar suporte para a valorização dos contratos futuros nos próximos meses.
Alerta de custos no Hemisfério Sul: O encarecimento da energia e de matérias-primas básicas projeta desafios para o planejamento da nova safra na América do Sul, influenciando a decisão de área dos produtores.
No mercado de petróleo, a continuidade dos conflitos envolvendo o Irã permanece como o principal regulador das cotações do barril de Brent. Embora o mercado tenha registrado acomodações parciais nas últimas semanas, o ritmo lento de recuperação da oferta global frente a uma demanda asiática aquecida mantém o equilíbrio entre produção e consumo apertado.
O segmento de fertilizantes deve apresentar comportamentos assimétricos entre as fórmulas de nutrientes. A retomada dos embarques de ureia por parte da China e a redução pontual nas taxas de frete marítimo trazem alívio para os compradores de nitrogenados, embora a demanda aquecida em polos como a Índia e o próprio Brasil limite quedas expressivas nos preços de balcão.
A situação exige maior cautela no mercado de fosfatados, onde a oferta internacional segue travada por restrições operacionais no suprimento de enxofre. Com custos de fabricação elevados e pouca flexibilidade de negociação por parte das indústrias, os importadores nacionais encontram dificuldades para estruturar compras antecipadas vantajosas antes do início do plantio.
As chamadas soft commodities registrarão caminhos divergentes ao longo do trimestre. O algodão encontra suporte em uma quebra na colheita global combinada com a forte absorção pelas fiações asiáticas. Em contrapartida, o café deve enfrentar pressões de baixa com a entrada física da safra recorde do Brasil, embora os estoques globais deprimidos e os atrasos na colheita funcionem como amortecedores de preço.
Dinâmica do açúcar e cacau: O açúcar segue balizado pela moagem ampla no Centro-Sul brasileiro, enquanto o cacau exibe sinais de acomodação técnica devido à recuperação gradual das lavouras na África Ocidental.
As projeções financeiras indicam a manutenção de um cenário de valorização para a paridade USD/BRL. A decisão do Federal Reserve em sustentar as taxas de juros americanas em patamares restritivos, associada à perspectiva de novos cortes na taxa Selic pelo Banco Central do Brasil, amplia o diferencial de juros e atrai capitais para os títulos norte-americanos.
De acordo com o gerente de Inteligência de Mercado da StoneX, Vitor Andrioli, o fortalecimento do dólar perante a moeda nacional altera a composição de custos das fazendas, encarecendo os pacotes tecnológicos dolarizados. Por outro lado, o câmbio elevado melhora a receita em reais no momento da liquidação dos contratos de exportação de soja e algodão.
A aproximação do ciclo eleitoral e as incertezas fiscais internas devem adicionar volatilidade extra às negociações de moedas no segundo semestre. As empresas do setor intensificam o uso de ferramentas de proteção e hedge para travar as margens operacionais antes da consolidação dos impactos climáticos previstos para o ano agrícola de 2026/2027.
O monitoramento das temperaturas do Oceano Pacífico guiará os modelos de previsão de safra a partir de agosto, determinando o início das chuvas para a semeadura no Cerrado. O Ministério da Agricultura acompanha os line-ups portuários para avaliar a capacidade de escoamento diante do aumento do volume de navios programados para o encerramento do trimestre.