Compra de ureia desaba 32% no primeiro semestre de 2026
Publicado em 06/07/2026 12h24

Compra de ureia desaba 32% no primeiro semestre de 2026

A importação brasileira de adubos recuou 8,6% no primeiro semestre de 2026, pressionada por tensões globais e relações de troca desfavoráveis.
Por: Wisley Torales

O balanço do primeiro semestre de 2026 expõe o comportamento defensivo das cooperativas agrícolas na aquisição de insumos estratégicos. Em um período marcado por oscilações cambiais e instabilidade internacional, o volume desembarcado nos portos registrou retração, alterando o ritmo que antecede os meses de plantio da nova temporada.

De acordo com o relatório da consultoria StoneX, as importações brasileiras das principais matérias-primas que compõem os fertilizantes registraram queda de 8,6% de janeiro a junho, na comparação com o mesmo intervalo de 2025. O analista de Inteligência de Mercado da instituição, Tomás Pernías, atribui o recuo ao ambiente de maior cautela dos compradores domésticos, que adiaram negociações diante do estresse geopolítico global.

Retração nos portos: O recuo de 8,6% nos desembarques reflete o adiamento das decisões de compra por parte das tradings e misturadoras nacionais, que operaram sob a pressão de margens estreitas nas fazendas.

Esse comportamento defensivo encontra justificativa nas turbulências provocadas pelos conflitos armados no Oriente Médio, região que concentra rotas logísticas importantes. Somado ao fator de risco, as relações de troca entre a saca de grãos e a tonelada de adubo figuraram entre os patamares menos atrativos dos últimos anos, desestimulando a antecipação de contratos futuros por parte do produtor rural.

O tombo dos nitrogenados e a crise do enxofre

A análise detalhada por grupos de nutrientes revela que as retrações atingiram fórmulas para o desenvolvimento vegetal. A ureia registrou uma das maiores baixas do período, com queda de 32% nos volumes internalizados no primeiro semestre de 2026 contra o ano anterior. O desaquecimento foi acompanhado pelo nitrato de amônio, cujas importações caíram 42%, e pelo fosfato monoamônico (MAP), com recuo de 24%.

A indústria de transformação nacional também enfrentou dificuldades na originação de componentes básicos. O enxofre, elemento utilizado nos complexos industriais para a síntese de fosfatados, teve o seu volume de importação reduzido em aproximadamente 42% na comparação anual, limitando a capacidade de estocagem das fábricas.

Gargalo na fabricação de fosfatados: A escassez global de enxofre forçou as plantas fabris internacionais a operarem com taxas de capacidade reduzidas, diminuindo a oferta de nutrientes prontos e encarecendo os fretes marítimos para a América do Sul.

Rotas alternativas e o avanço do potássio

Em sentido oposto à retração observada nos nitrogenados, o cloreto de potássio e o superfosfato triplo (TSP) registraram desempenho positivo no balanço aduaneiro. O cloreto de potássio encontrou sustentação em janelas pontuais de preços favoráveis ao longo do segundo trimestre, permitindo que grandes cooperativas travassem volumes aproveitando momentos de calmaria no mercado cambial.

No caso do TSP, o avanço reflete uma estratégia de substituição das misturadoras brasileiras. Diante da menor oferta de MAP e DAP nos canais de abastecimento, o mercado buscou no superfosfato triplo uma rota alternativa para suprir a demanda por fósforo, elemento que dita o enraizamento e estabelecimento inicial das lavouras de verão.

Janela curta e o risco para a safra 2026/2027

O atraso nas compras acende o sinal de alerta para o cronograma logístico da safra 2026/2027, dado que o tempo necessário para o transporte marítimo e a mistura interna começa a pressionar o calendário das fazendas. Pernías explica que a dinâmica de estocagem varia entre as categorias, sendo que o mercado de nitrogenados tradicionalmente ganha tração entre junho e dezembro, preparando o terreno para o milho safrinha.

O cenário exige atenção no segmento de fosfatados, cuja aplicação ocorre na base de semeadura, demandando que o insumo já esteja nas propriedades entre setembro e outubro. Como as aquisições se concentram de abril a agosto, os importadores precisarão acelerar o ritmo de compras nas próximas semanas para evitar o desabastecimento das plantadeiras.

As indústrias nos portos monitoram as filas de navios graneleiros, planejando as escalas de descarga para conter o impacto das taxas de sobreestadia no custo de internalização das mercadorias que vão abastecer o Cerrado.