
A escassez de gado pronto para o abate nos Estados Unidos disparou as cotações internas e redesenhou o fluxo de exportações na América do Sul. O país enfrenta o menor rebanho das últimas décadas, resultado de secas severas que castigaram as pastagens e de restrições sanitárias que impedem a entrada de animais vindos do México. Essa combinação de fatores reduziu a oferta de proteína no varejo estadunidense, gerando pressões inflacionárias que forçaram a busca por novos fornecedores internacionais.
Para conter o encarecimento do produto, o governo de Donald Trump costurou um acordo bilateral com a administração de Javier Milei, ampliando a cota de importação da carne argentina de 20 mil para 100 mil toneladas anuais. Essa flexibilização atende à necessidade imediata de abastecimento do mercado norte-americano, provocando um efeito dominó que beneficia diretamente as indústrias frigoríficas instaladas no território brasileiro.
Com uma fatia expressiva de sua produção direcionada para preencher a nova cota nos Estados Unidos, a Argentina passou a registrar descompasso no atendimento de seus compradores habituais, recorrendo ao Brasil para suprir a lacuna. A analista de mercado da HN Agro, Isabela Camargo, aponta que essa engrenagem comercial resultou em uma triangulação muito positiva para o agronegócio nacional, que encontrou no vizinho um destino altamente demandante.
Salto nas exportações regionais: Os embarques de carne bovina brasileira para a Argentina registraram um crescimento de 120% nos primeiros seis meses de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.
Essa movimentação permite que as indústrias argentinas continuem honrando seus contratos com parceiros de peso, como a China, sem desabastecer o consumo interno de sua população. O Brasil consolida-se como o grande motor dessa engrenagem regional, fornecendo a matéria-prima necessária para que os concorrentes consigam focar em mercados de maior valor agregado ou com isenções tributárias específicas.
Mesmo comprando mais da Argentina, os Estados Unidos são o segundo principal destino das exportações diretas da carne brasileira. O fluxo comercial se sustenta elevado mesmo após o esgotamento precoce da cota fixa de 52 mil toneladas, preenchida nos primeiros dias de janeiro.
Taxas alfandegárias: Após o esgotamento da cota inicial isenta, os embarques brasileiros de carne para os Estados Unidos sofrem taxação direta, o que não impede a manutenção de volumes expressivos devido à forte necessidade de abastecimento interna.
A absorção desses custos alfandegários evidencia a competitividade do boi gordo brasileiro no preenchimento de lacunas globais. A Austrália e a Argentina operam com restrições de volume por conta da fase atual do ciclo pecuário, limitando a concorrência direta nos portos norte-americanos.
Os relatórios emitidos pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetam que a produção mundial de carne bovina sofrerá uma retração de 1,1% ao longo de 2026 na comparação com a temporada anterior. Essa queda reflete a fase de alta do ciclo pecuário na maioria dos países produtores, caracterizada pela retenção de matrizes e menor ritmo de abates para recomposição.
Essa menor oferta global valoriza o produto brasileiro, que acumulou um crescimento de 16,2% no volume total exportado entre janeiro e junho deste ano em relação a 2025. Apesar do desempenho favorável, a analista da HN Agro faz um alerta sobre a concentração dos embarques, já que a China absorveu 51,7% de toda a carne bovina enviada ao exterior pelo Brasil no primeiro semestre.
Para diminuir a dependência do mercado chinês, cujas cotas anuais dão sinais de esgotamento na metade do ano, o governo brasileiro acelera negociações sanitárias com outros grandes compradores globais. As tratativas para a abertura do mercado do Japão encontram-se em estágio avançado, paralelamente aos esforços para expandir os canais comerciais com a Coreia do Sul.