Como o programa estadual transformou o cacau em realidade em SP
Publicado em 30/06/2026 11h00

Como o programa estadual transformou o cacau em realidade em SP

A APTA Regional apresentou no evento Cacau Paulista 2026, em São José do Rio Preto, os avanços técnicos que consolidam o fruto no Vale do Ribeira.
Por: Wisley Torales

A cultura do cacau encontrou no Estado de São Paulo um novo polo de desenvolvimento econômico, distanciando-se da antiga percepção de que a lavoura estaria restrita às regiões tradicionais do Nordeste. O avanço técnico conquistado nas últimas décadas transformou o cenário produtivo paulista, estabelecendo padrões elevados de qualidade que começam a chamar a atenção de investidores, indústrias de chocolates finos e do mercado consumidor de alta gastronomia.

Esse movimento ganhou visibilidade durante o Cacau Paulista 2026, considerado o maior encontro voltado à cadeia produtiva do setor no território paulista. Realizado no dia 25 de junho, em São José do Rio Preto, o evento reuniu agricultores, pesquisadores, técnicos e empresários com o objetivo de discutir estratégias de manejo, mercado e as diretrizes que vão nortear a expansão da cultura nos próximos anos.

Quatro décadas de ciência no campo

A base para a consolidação da atividade no estado repousa sobre os experimentos conduzidos pela APTA Regional de Pariquera-Açu, instituição que acumula mais de 40 anos de estudos contínuos dedicados à cacauicultura. Os especialistas da unidade concentram esforços em linhagens de melhoramento genético, adaptação de plantas a diferentes tipos de solo e formatação de sistemas de manejo voltados especificamente para as condições do Vale do Ribeira.

Evolução da pesquisa: Os testes de campo avaliam a resiliência das plantas diante das oscilações climáticas locais, gerando dados que diminuem os riscos operacionais para os produtores que decidem diversificar a matriz produtiva de suas propriedades.

De acordo com o pesquisador Eduardo Fuzitani, diretor da unidade da APTA Regional Pariquera-Açu, os investimentos estaduais estruturaram um novo ambiente de negócios. O lançamento do Programa Cacau SP, instituído pelo Governo do Estado em 2024, atuou como um divisor de águas ao facilitar o acesso a tecnologias de cultivo e fomentar a implantação de novas áreas comerciais.

Dr Eduardo Fuzitani, pesquisador da APTA REGIONAL sede Pariquera-Açu

A busca crescente por amêndoas com perfis sensoriais complexos impulsiona o interesse de produtores em regiões que possuem aptidão agrícola natural. O Vale do Ribeira se destaca nesse mapa devido ao microclima favorável e ao histórico de manejo que prioriza a preservação ambiental, fatores que contribuem para a agregação de valor ao produto final.

Reconhecimento nacional e premiações

A validação prática dos modelos desenvolvidos nos laboratórios paulistas ocorreu por meio de premiações de relevância nacional, que medem a qualidade das amêndoas destinadas ao segmento bean-to-bar, modelo de fabricação que acompanha o produto desde o grão até a barra de chocolate. O cacau colhido nos campos de pesquisa de Pariquera-Açu serviu de matéria-prima para a elaboração do melhor chocolate do Brasil nessa categoria no ano de 2024.

Excelência premiada: O mesmo sistema produtivo manteve a regularidade qualitativa na temporada seguinte, conquistando a terceira colocação nacional em 2025 e atestando a estabilidade técnica do manejo pós-colheita adotado na região.

Fuzitani detalha que esses resultados demonstram a viabilidade econômica da atividade, mostrando aos agricultores locais que a precisão nos processos de fermentação e secagem gera dividendos financeiros superiores. A transferência dessas tecnologias para as propriedades comerciais ocorre por meio de dias de campo e parcerias diretas com cooperativas regionais.

Integração e mercado de chocolates finos

A expansão da área plantada em São Paulo ocorre de forma integrada com as indústrias processadoras, que demandam uma matéria-prima com rastreabilidade garantida. O debate técnico promovido em São José do Rio Preto abordou desde o controle fitossanitário das lavouras até a automação dos sistemas de irrigação por gotejamento, fundamentais para manter a produtividade em períodos de estiagem prolongada.

O evento contou com a colaboração de entidades de peso na cadeia do agronegócio, incluindo a Ceplac, a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) e a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab). A presença de multinacionais do setor e de redes como CocoaAction e Mars sinaliza o interesse comercial na consolidação de São Paulo como um fornecedor estratégico.

Os painéis demonstraram que o cultivo paulista deixou o estágio de experimentação inicial, operando com foco em eficiência de custos e mecanização de processos. As diretrizes do Programa Cacau SP estimulam a sustentabilidade produtiva, associando a conservação dos recursos naturais à geração de novas fontes de receita nas pequenas e médias propriedades agrícolas paulistas.