Por que a supersafra de grãos nem sempre baixa o preço no mercado?
Publicado em 22/06/2026 11h33

Por que a supersafra de grãos nem sempre baixa o preço no mercado?

Conab projeta safra recorde de 358,6 milhões de t no Brasil em 2026, mas déficit de armazéns e frete caro pressionam a rentabilidade do produtor.
Por: Wisley Torales

A colheita brasileira caminha para patamares históricos nesta temporada, trazendo desafios para a rentabilidade dentro da porteira. Estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que a safra total de grãos do ciclo 2025/26 deve atingir o recorde de 358,6 milhões de toneladas, impulsionada pela soja e pelo milho.

A fartura de produtos altera a dinâmica de preços e expõe gargalos da infraestrutura nacional. A receita final do agricultor depende de uma equação que envolve a produtividade por hectare, as cotações internacionais e a oscilação do câmbio, que voltou a subir após registrar quedas no encerramento de maio.

O gargalo da armazenagem estática

O incremento nos volumes colhidos joga luz sobre as limitações logísticas do país, especialmente na capacidade de estocagem. De acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capacidade disponível para o armazenamento de produtos agrícolas no Brasil era de 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025.

A comparação com a projeção da Conab mostra uma diferença nominal de 124,8 milhões de toneladas entre a safra estimada e o espaço físico existente. Embora os ciclos de colheita ocorram em momentos distintos ao longo do ano, a concentração da safra de verão gera forte pressão nos armazéns regionais.

Descompasso entre Produção e Estrutura Logística:

  • Safra total de grãos projetada (Conab): 358,6 milhões de toneladas

  • Estimativa específica para a soja: 180,3 milhões de toneladas

  • Capacidade estática de armazenamento (IBGE): 233,8 milhões de toneladas

  • Diferença registrada entre safra e armazéns: 124,8 milhões de toneladas

A escalada do frete e o impacto no escoamento

Sem espaço para guardar a produção, milhares de produtores rurais precisam escoar o grão de forma imediata. Esse movimento simultâneo satura as rotas rodoviárias em direção aos portos e espoleta uma forte disputa pela contratação de frotas de caminhões autônomos e transportadoras corporativas.

Com isso, o frete deixa de ser um custo previsível para corroer as margens financeiras. Relatórios indicam que o valor por tonelada chega a dobrar nos períodos mais agudos do escoamento, encarecendo o transporte até os portos.

Para mitigar essa volatilidade, ferramentas como os contratos de barter funcionam como amortecedores econômicos. Os agricultores que travaram custos entregando parte da colheita de forma antecipada navegam pelo pico de escoamento com mais previsibilidade operacional.

Quem optou por negociar o volume disponível diretamente no mercado físico durante os meses de colheita fica exposto à combinação desfavorável de preços deprimidos pelo excesso de oferta, fretes inflacionados e ausência de silos disponíveis para estocagem estratégica.

Transmissão de preços ao consumidor

No mercado da soja, análises divulgadas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indicam que a desvalorização do real frente ao dólar e o apetite firme dos compradores estrangeiros ajudam a sustentar patamares nominais no mercado interno, mas o excesso de oferta global atua como um teto para valorizações expressivas.

"A supersafra de grãos atua reduzindo os custos de matérias-primas na origem, mas a velocidade de repasse desse alívio financeiro para as gôndolas dos supermercados obedece a dinâmicas industriais complexas", aponta o estudo de acompanhamento de margens do Cepea.

A queda de preço obtida na fazenda demora a alcançar o carrinho de compras do consumidor devido a custos fixos industriais, tributação e margens do varejo. Derivados diretos, como o óleo de cozinha e o farelo para rações de aves e suínos, sentem o impacto de forma gradual.

A rentabilidade real do agronegócio dependerá da capacidade do mercado em absorver os volumes recordes sem que a derrocada dos preços anule os ganhos de produtividade conquistados pelas colheitadeiras nas principais regiões produtoras do país.