Limite alcançado: Área de soja em MT deve crescer apenas 0,25% na safra 2026/27
Publicado em 02/06/2026 11h31

Limite alcançado: Área de soja em MT deve crescer apenas 0,25% na safra 2026/27

A primeira estimativa do IMEA para a safra de soja 2026/27 em Mato Grosso confirma a estabilização da área plantada em 13,05 milhões de hectares e projeta queda na produtividade média para 62,44 sacas por hectare sob o risco iminente de um El Niño severo.
Por: Wisley Torales

O ritmo acelerado de expansão territorial que marcou a história recente da agricultura em Mato Grosso dá sinais claros de esgotamento. De acordo com a primeira projeção divulgada pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA) para o ciclo 2026/27, o principal estado produtor de grãos do país deve registrar uma acomodação em sua área cultivada. Na avaliação do consultor de agronegócio Antonio Prado G. B. Neto, o cenário marca uma transição obrigatória do crescimento horizontal para o ganho em eficiência vertical e tecnológica dentro das propriedades.

As planilhas do instituto apontam que Mato Grosso deverá semear 13,05 milhões de hectares no próximo ciclo da oleaginosa. O número representa um incremento de apenas 0,25% em comparação com a safra anterior, consolidando o menor índice de expansão verificado nos últimos anos. Após incorporar expressivos 1,57 milhão de hectares ao longo das últimas cinco safras, o setor atinge o seu limite físico e econômico, passando a depender quase que exclusivamente do tripé manejo de solo, eficiência agronômica e biotecnologia para registrar novos recordes de volume.

O fator climático e o fantasma do El Niño

Se o espaço para crescimento travou, o rendimento por hectare também exigirá cautela redobrada do produtor. O IMEA estima a produtividade média do estado em 62,44 sacas por hectare, o que indica uma retração de 5,43% frente ao desempenho consolidado na safra 2025/26. Essa postura defensiva nas estimativas reflete o temor generalizado em relação ao comportamento do clima ao longo do segundo semestre.

ALERTA DOS INSTITUTOS DE METEOROLOGIA - A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) aponta probabilidades superiores a 90% para a consolidação do fenômeno El Niño já a partir do trimestre composto por junho, julho e agosto. Os modelos climáticos indicam risco crescente de uma intensidade de forte a muito forte entre outubro de 2026 e fevereiro de 2027.

Caso as previsões meteorológicas se confirmem na prática, a geografia agrícola do país sofrerá impactos distintos:

  • Centro-Norte do Brasil: Tende a enfrentar atrasos crônicos no início do período chuvoso, veranicos mais frequentes durante o desenvolvimento da cultura e, consequentemente, uma janela de plantio mais arriscada para o milho segunda safra (safrinha).

  • Região Sul: Deve caminhar no sentido inverso, registrando volumes de precipitação consideravelmente acima das médias históricas.

Diante do risco de estresse hídrico no Cerrado, as práticas de conservação de solo assumem papel de blindagem patrimonial. Estratégias como a construção de perfil profundo de solo, calagem corretiva, estímulo ao aprofundamento radicular das plantas e otimização no aproveitamento de fertilizantes serão decisivas para segurar o teto produtivo das lavouras.

Margens apertadas e mercado desaquecido

No ambiente comercial, o fechamento do mês de maio trouxe dores de cabeça para o gerenciamento financeiro das fazendas. Tanto a soja quanto o milho operam com preços pressionados e baixíssima liquidez no mercado físico brasileiro. A comercialização da soja segue travada e lateralizada, rodando abaixo da média histórica para o período. Nos portos, os valores oferecidos estão cerca de R$ 15 por saca abaixo dos patamares registrados no início da safra recorde anterior, frustrando as intenções de venda de quem segurou o produto.

O milho também acumulou perdas, recuando perto de R$ 5 por saca no mercado físico. O movimento foi empurrado pelo avanço rápido do plantio do corn belt nos Estados Unidos e pelo início oficial dos trabalhos de colheita da safrinha em território nacional. Apesar do viés baixista no curto prazo, os fundamentos de longo prazo do cereal continuam robustos, sustentados pelo forte consumo interno das usinas de etanol de milho e pelas indústrias produtoras de ração animal. Em um cenário de juros altos e fertilizantes caros, o planejamento rigoroso será o divisor de águas entre o lucro e o prejuízo.