
Animais mortos no pasto. Foto: Reprodução, Iagro
A pecuária de corte de Mato Grosso do Sul enfrenta perdas produtivas decorrentes das oscilações climáticas severas registradas neste mês. A Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal (Iagro) confirmou o recebimento de notificações oficiais reportando a morte de 83 bovinos. As ocorrências estão concentradas em municípios da região sul do estado, onde as temperaturas despencaram nos últimos dois fins de semana.
Os registros oficiais mostram que o impacto atingiu cinco estabelecimentos rurais até a última terça-feira. A maior concentração de perdas ocorreu no município de Nova Andradina, localizado a 298 quilômetros da capital, Campo Grande. Nessa localidade, quatro produtores formalizaram o óbito de 74 cabeças de gado. O quinto registro foi computado em Angélica, onde uma fazenda perdeu nove animais.
As autoridades de defesa sanitária já haviam emitido comunicados de orientação técnica antes do ingresso da primeira massa de ar polar no território sul-mato-grossense. O aviso prévio, publicado no dia 8 de maio, sinalizava a necessidade de intervenção nos piquetes. O objetivo era mitigar os riscos de perdas econômicas por estresse térmico, especialmente em propriedades que utilizam sistemas de pastejo contínuo sem áreas de proteção.
A mortalidade dos animais decorre de uma associação de fatores meteorológicos que potencializam o desgaste fisiológico do rebanho. A incidência de temperaturas reduzidas, combinada com precipitações pluviométricas e rajadas de vento em velocidade elevada, rompe a capacidade de homeostase dos bovinos. Sem barreiras de proteção, os animais dissipam calor corporal mais rápido do que conseguem produzir.
De acordo com avaliações da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), esse ambiente afeta a saúde geral do plantel. A exposição prolongada a correntes de ar gelado provoca a queda drástica na imunidade natural dos bovinos. Esse quadro abre espaço para o desenvolvimento de infecções secundárias, com destaque para as afecções do sistema respiratório, como a pneumonia.
O risco é ampliado quando o lote é composto por categorias animais consideradas sensíveis. Bezerros em fase de aleitamento, matrizes em terço final de gestação, animais idosos ou lotes recém-submetidos a manejos estressantes demandam monitoramento diário. O estresse do desmame recente ou do transporte de longa distância reduz a capacidade do gado de enfrentar o estresse do frio.
Destaque: A associação de chuva, vento forte e baixas temperaturas acelera a perda de calor corporal, levando os bovinos à morte por hipotermia em poucas horas.
O problema climático interfere diretamente na base alimentar da pecuária do Centro-Oeste. A ocorrência de geadas queima o tecido foliar das gramíneas tropicais, principalmente as do gênero Brachiaria. A geada destrói a estrutura celular das plantas, provocando a perda do valor nutritivo e da digestibilidade da forragem disponível.
Com o pasto degradado pelo frio, o gado perde escore corporal rapidamente por falta de nutrientes. Essa restrição alimentar agrava o quadro de hipotermia, pois o animal necessita de energia extra oriunda da fermentação ruminal para gerar calor interno. As propriedades que operam sem planejamento de suplementação sofrem as maiores baixas operacionais.
O cenário ganha complexidade porque a entrada do período de seca já limita a taxa de crescimento das pastagens na região. O menor índice de radiação solar e a escassez de chuvas reduzem a oferta de massa verde. O pecuarista precisa adotar estratégias de fornecimento de volumosos ou concentrados no cocho para compensar o déficit energético provocado pelo clima.
O histórico técnico da Iagro aponta que a mortalidade por hipotermia registrou índices elevados nos invernos de 2023 e 2024. No ciclo correspondente ao ano de 2025, o estado não computou notificações dessa natureza. Para evitar que o balanço de 2026 repita os prejuízos do passado, a agência orienta a execução de protocolos específicos de manejo fitotécnico.
Os técnicos recomendam o recolhimento imediato dos lotes mais vulneráveis para invernadas que disponham de capões de mata nativa ou bosques plantados. A vegetação densa funciona como um quebra-vento natural, diminuindo a velocidade do ar gelado e retendo a umidade. A instalação de barreiras artificiais nas cercas também auxilia na proteção das áreas de descanso.
Outra recomendação prática consiste em evitar o confinamento ou a permanência dos animais em áreas de baixada ou próximas a corpos d'água, como rios e represas. Essas regiões acumulam maior umidade e registram as menores temperaturas durante a madrugada. Os animais debilitados devem ser mantidos em piquetes de hospitalizados, próximos às sedes, para facilitar o trato.
Recomendação: O fornecimento de alimentação suplementar com cana-de-açúcar, silagem ou capim picado ajuda o gado a manter a temperatura interna.
O pecuarista que registrar óbitos no rebanho deve realizar a comunicação de forma imediata ao escritório local da Iagro. O procedimento é necessário para a regularização do cadastro de estoque de animais da propriedade. A vistoria técnica do serviço oficial valida a causa da morte e efetua a baixa nos sistemas informatizados de defesa animal.
Nos casos em que o deslocamento das equipes oficiais até a propriedade rural seja inviável devido às condições das estradas, o produtor possui a opção de apresentar um laudo técnico emitido por um médico veterinário da iniciativa privada. O documento deve detalhar os achados de necropsia que confirmem o diagnóstico de morte por causas climáticas.
A destinação correta dos cadáveres exige agilidade das equipes de campo da fazenda para evitar contaminações ambientais. As carcaças precisam ser enterradas em locais secos, longe de nascentes, ou queimadas por completo. A permanência dos restos mortais no pasto eleva o risco de proliferação de esporos da bactéria causadora do botulismo, além de atrair vetores de doenças.
A comunicação com a agência estadual pode ser realizada de forma digital. O órgão disponibiliza um canal de atendimento direto via aplicativo de mensagens WhatsApp, pelo número (67) 99961-9205. Os fiscais agropecuários continuam em regime de plantão para receber novas notificações de perdas no decorrer deste mês.