
O encerramento do 4º Congresso da Abramilho, em Brasília, evidenciou a necessidade de o Brasil adotar uma postura estratégica no tabuleiro internacional. O debate reuniu representantes do Itamaraty e do Ministério da Agricultura (Mapa) para tratar de um desafio crescente: as barreiras não tarifárias. O foco recai sobre a União Europeia e suas exigências ambientais que ignoram as particularidades da agricultura tropical brasileira.
Luís Rua, Secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, destacou que o mercado europeu utiliza exigências subjetivas para frear a competitividade nacional. Para ele, o país precisa intensificar acordos bilaterais e garantir que a imagem de parceiro confiável prevaleça em novos mercados. A diversificação de destinos é o caminho para evitar que o milho fique refém de decisões ideológicas.
Dado de Mercado: Brasil, EUA e Argentina controlam 80% das exportações globais de milho, formando um bloco de peso para decisões regulatórias.
A vulnerabilidade da lavoura brasileira começa fora do país. Atualmente, o Brasil importa mais de 90% dos fertilizantes utilizados no campo. Maciel Silva e Sueme Mori, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), detalharam como os conflitos no Leste Europeu e no Mar Vermelho impactam diretamente os custos de produção.
A análise técnica da CNA mostra uma conexão imediata entre a geopolítica e os gastos do produtor. Quando o petróleo sobe devido a tensões globais, o preço do diesel nas bombas de Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul sofre impacto instantâneo. Esse cenário encarece o frete e reduz a margem de lucro de quem produz o grão que sustenta a economia nacional.
Para reduzir essa dependência de insumos químicos importados, a biotecnologia surge como uma alternativa de peso. Márcio Farah, da Pivot Bio, apresentou soluções de fixação biológica de nitrogênio que podem mudar a estrutura de custos do produtor. A tecnologia utiliza microrganismos para fornecer o nutriente diretamente à raiz da planta, de forma contínua.
Essa inovação permite diminuir a compra de adubos nitrogenados fabricados a partir de gás natural na Rússia ou na China. Ao baratear o custo por saca, o agricultor ganha fôlego financeiro para enfrentar as oscilações de preço do mercado internacional. A ciência aplicada ao solo brasileiro é o que garante a continuidade da produção sem depender totalmente de fornecedores externos.
Alerta da CNA: Tensões no Mar Vermelho elevam custos logísticos e impactam o preço final do diesel utilizado na colheita e transporte da safra.
O presidente da Maizall, Manuel Ron, defendeu uma aliança mais estreita entre os grandes produtores das Américas. Brasil, Estados Unidos e Argentina precisam falar a mesma língua em fóruns internacionais. Segundo Ron, a união desses países é necessária para barrar regulamentações que tentam limitar o uso de biotecnologia aprovada cientificamente.
Essa estabilidade no fornecimento de milho é o que sustenta outra liderança brasileira: a exportação de carnes. Arene Trevisan, da JBS, destacou que a competitividade da proteína animal depende de um suprimento constante e barato de grãos. O milho é o principal ingrediente da ração, e qualquer falha na logística ou explosão nos custos reflete na gôndola e nos embarques internacionais.
O Brasil mantém a liderança global no setor de proteínas, mas enfrenta a concorrência de nações emergentes que buscam ocupar espaços onde o custo logístico brasileiro é elevado. A resiliência da cadeia produtiva exige investimentos em modais de transporte e em sistemas de armazenagem que protejam o grão de quedas bruscas de preço ou interrupções no fluxo de saída.
Grace Tanno, do Ministério das Relações Exteriores, enfatizou que a diplomacia comercial atua para consolidar o Brasil como porto seguro da alimentação mundial. O trabalho envolve a abertura de novos mercados na Ásia e na África, diminuindo a exposição aos riscos de blocos que utilizam o meio ambiente como pretexto para o fechamento comercial.
A integração entre lavoura e pecuária também foi citada como fator de proteção econômica. Propriedades que diversificam a produção entre grãos e gado Nelore conseguem equilibrar melhor o fluxo de caixa durante crises em um dos setores. Essa versatilidade do produtor brasileiro é o que garante a sobrevivência do negócio mesmo com insumos dolarizados.
A Lei da Reciprocidade, recentemente aprovada no Congresso Nacional, funcionará como o instrumento jurídico para o Brasil reagir a restrições comerciais injustas. O Itamaraty monitora os desdobramentos das políticas de desmatamento da União Europeia para garantir que os interesses comerciais dos produtores de milho sejam preservados até o fim de 2026.