O mercado de proteína animal no Brasil demonstra sinais claros de resiliência e adaptação frente às oscilações de custos e demandas globais. Em maio de 2026, a avicultura de corte brasileira consolida uma posição estratégica de competitividade, mesmo diante de um cenário internacional marcado por desafios logísticos. Dados recentes apontam que a proteína branca conseguiu absorver reajustes de preços sem perder o interesse do consumidor final, que ainda encontra nela a opção mais acessível em relação aos cortes bovinos.
Segundo o levantamento técnico detalhado pela Consultoria Agro do Itaú BBA, o preço do frango inteiro congelado no estado de São Paulo apresentou uma recuperação consistente. No dia 8 de maio, a cotação média atingiu R$ 7,60 por quilo, refletindo uma valorização que acompanha a maior procura típica do período. Esse movimento de alta não é um fato isolado, mas parte de uma tendência de recuperação de margens que o setor buscava desde o início do primeiro trimestre.
Na média mensal consolidada, o avanço nos preços foi de 3,8% quando comparado ao mês de março. Este crescimento é um dos principais fatores para a melhora do spread da avicultura — a diferença entre o custo de produção e o preço de venda. O indicador saltou de 32% para 35% em um curto intervalo de tempo, impulsionado pela relativa estabilidade nos preços dos insumos básicos, como o milho e o farelo de soja, que compõem a maior parte da dieta das aves.
Destaque: O spread atual de 35% na avicultura brasileira está significativamente acima da média registrada nos últimos cinco anos, que se posiciona em 27%.
A análise da competitividade do frango ganha profundidade quando comparada diretamente com o dianteiro bovino, seu principal concorrente na mesa dos brasileiros. Mesmo com o reajuste de preços ocorrido em abril e maio, o frango continua apresentando uma vantagem econômica atraente. Os dados de mercado mostram que a relação de troca permanece em níveis que favorecem o consumo da proteína branca.
Para se ter uma ideia da disparidade, foram necessários 3,15 quilos de frango para adquirir um quilo de carcaça dianteira bovina no mercado paulista. Esse indicador é um termômetro fundamental para entender o comportamento das gôndolas. Quando observamos a média histórica dos últimos cinco anos, esse número era de 2,32 quilos, o que comprova que o frango está, proporcionalmente, muito mais barato hoje do que em anos anteriores.
Essa vantagem competitiva sustenta o escoamento da produção interna, impedindo o acúmulo de estoques que poderiam pressionar os preços para baixo. A estratégia das integradoras tem sido monitorar de perto essa relação de troca para ajustar o ritmo de oferta, garantindo que a carne bovina, embora também apresente oscilações, não recupere o terreno perdido para o frango no curto prazo.
O volume de produção é outro ponto que exige monitoramento rigoroso por parte dos gestores do agronegócio. Dados preliminares referentes ao primeiro trimestre de 2026 indicam um crescimento de 4,5% nos abates de frango em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse aumento na oferta é reflexo de investimentos realizados em ambiência e genética, que elevaram a produtividade das linhagens comerciais.
Contudo, uma oferta mais robusta demanda um acompanhamento constante do ritmo de absorção, tanto no mercado doméstico quanto no internacional. O equilíbrio entre o que é produzido e o que o mercado consegue consumir é o que garante a manutenção dos preços em níveis remuneradores para o produtor. Até o momento, o mercado interno tem demonstrado fôlego, absorvendo a maior parte do incremento produtivo.
A manutenção da sanidade animal no Brasil, livre de Influenza Aviária em plantéis comerciais, continua sendo o maior ativo do país. Essa condição sanitária impecável permite que as indústrias operem em capacidade máxima, sabendo que as barreiras técnicas são mínimas para o produto brasileiro em comparação com concorrentes globais que enfrentam surtos da doença em suas granjas.
Dado técnico: Os abates no 1º trimestre de 2026 superaram as expectativas do setor, sinalizando uma oferta total maior para o ciclo anual.
No front externo, o Brasil demonstra agilidade para contornar problemas geopolíticos e logísticos. Em abril, as exportações de carne de frango, somando os volumes in natura e industrializados, totalizaram 472 mil toneladas. Embora o volume represente um recuo de 3,7% na comparação mensal com março, o resultado é 2% superior ao registrado em abril de 2025.
A leve queda em relação a março é atribuída, em grande parte, aos entraves logísticos no Oriente Médio, região tradicionalmente compradora do "frango griller" brasileiro. As dificuldades de fluxo em portos estratégicos e o aumento no custo dos fretes marítimos na zona de conflito impuseram desafios extras aos exportadores. No entanto, a força da avicultura nacional reside na sua diversidade de clientes.
Mercados como Japão, África do Sul, Filipinas e Holanda desempenharam um papel fundamental na compensação dessas perdas pontuais. O Japão, conhecido por sua exigência em cortes de alto valor agregado, manteve a demanda aquecida, enquanto as Filipinas consolidam-se como um destino crescente para a proteína brasileira na Ásia. Esse redirecionamento de cargas evita que o excedente de exportação pressione o mercado interno.
A estratégia das grandes empresas do setor tem sido focar na flexibilidade produtiva. As plantas frigoríficas brasileiras conseguem alternar rapidamente entre o processamento de aves inteiras e cortes específicos, dependendo da rentabilidade de cada mercado. Essa capacidade de adaptação garante que o Brasil continue detendo cerca de 35% do comércio global de carne de frango, liderança que não parece ameaçada no horizonte de 2026.
As exportações brasileiras de carne de frango para a China apresentaram estabilidade em abril, mesmo com o aumento da produção interna chinesa de suínos.