Brasil e China: Aliança em inovação e biotecnologia é chave para segurança alimentar global
Publicado em 13/05/2026 11h45

Brasil e China: Aliança em inovação e biotecnologia é chave para segurança alimentar global

Em Brasília, o 4º Congresso Abramilho debateu hoje (13) como a biotecnologia e a parceria com a China garantem a segurança alimentar mundial.
Por: Wisley Torales

O Unique Palace, em Brasília, sediou na manhã desta quarta-feira (13) um dos debates mais aguardados do setor produtivo global. O segundo painel do 4º Congresso da Abramilho concentrou as discussões na inovação como alicerce para a manutenção da oferta de alimentos. O encontro reuniu a diplomacia chinesa e autoridades técnicas brasileiras para traçar os rumos da produção de grãos.

O cenário de 2026 apresenta desafios climáticos e geopolíticos que exigem respostas rápidas do campo. A colaboração científica entre Brasil e China surge como o caminho para estabilizar o fornecimento de energia e proteína. Lideranças governamentais e do setor privado concordam que a previsibilidade nas normas é o que sustenta a confiança do mercado asiático no produto nacional.

A segurança alimentar mundial depende diretamente da capacidade brasileira de aplicar ciência em larga escala. Durante o painel, ficou evidente que o país deixou de ser um exportador de baixo valor agregado para se tornar um hub de tecnologia tropicalizada. Essa evolução é acompanhada de perto por Pequim, que monitora a biossegurança e a eficiência das lavouras de milho e sorgo.

A visão estratégica da China no campo brasileiro

O Embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, apresentou uma perspectiva que vai além da simples compra de grãos. Ele destacou que a relação bilateral amadureceu para uma parceria estratégica de longo prazo. A China enxerga o Brasil como o parceiro mais estável para garantir o abastecimento de sua população, pautando-se em critérios de sustentabilidade rigorosos.

O diplomata mencionou o conceito de "logística verde" como uma prioridade para os próximos anos. A ideia é reduzir a pegada de carbono em toda a jornada do grão, do plantio no Centro-Oeste até o desembarque nos portos chineses. Esse alinhamento ambiental é visto como um diferencial competitivo para o produtor brasileiro frente a outros grandes exportadores mundiais.

Zhu Qingqiao sinalizou que o mercado chinês mantém o interesse em produtos de alta tecnologia e com certificações de origem claras. O embaixador enfatizou que a cooperação em inovação agrícola é a ferramenta que garantirá a fluidez do comércio. A China busca estreitar laços técnicos para que os padrões de qualidade sejam harmonizados entre as duas nações.

Destaque: Em 2025, o Brasil destinou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina e volumes recordes de milho para a China, consolidando o país como o principal cliente do agronegócio.

Biotecnologia e a resiliência das culturas

O presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Mario Murakami, detalhou a urgência de manter o país na fronteira da ciência aplicada. O foco atual das pesquisas brasileiras recai sobre a edição genômica, especialmente a tecnologia CRISPR. Essas ferramentas permitem o desenvolvimento de sementes mais resistentes a secas prolongadas e picos de temperatura.

Murakami defendeu que as Novas Técnicas de Melhoramento (NBTs) são essenciais para a adaptação da agricultura tropical. Ele explicou que a agilidade regulatória da CTNBio é fundamental para que o produtor tenha acesso a essas soluções em tempo recorde. A ciência produzida no Brasil precisa focar em soluções próprias para os problemas específicos do solo e clima nacionais.

A biossegurança é o pilar que sustenta a exportação para mercados exigentes. O presidente da CTNBio afirmou que o rigor técnico nas avaliações brasileiras oferece as garantias necessárias para que os parceiros internacionais aceitem os novos eventos biotecnológicos. O reconhecimento mútuo dessas normas entre Brasil e China facilitaria a entrada de novas variedades de milho no mercado asiático.

Defesa agropecuária e protocolos fitossanitários

Carlos Goulart, Secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura (Mapa), abordou o papel da fiscalização na abertura de mercados. Ele explicou que a credibilidade do sistema sanitário brasileiro é o que permite ao país transpor barreiras técnicas complexas. O trabalho constante do Mapa visa harmonizar as exigências brasileiras com os protocolos exigidos por Pequim.

A digitalização dos certificados e o monitoramento em tempo real das cargas são avanços que reduzem a burocracia portuária. Goulart destacou que o objetivo é garantir que o milho e o sorgo brasileiros cheguem ao destino final com o máximo de segurança. A transparência na comunicação de dados sanitários entre os dois países é um fator que evita embargos preventivos e interrupções no fluxo.

O secretário pontuou que o Brasil trabalha para antecipar as demandas chinesas. Isso inclui a conformidade com novos critérios de resíduos químicos e o controle rigoroso de pragas que não existem no território asiático. Essa proatividade na defesa agropecuária é o que mantém o Brasil como o fornecedor mais confiável do planeta na visão dos compradores internacionais.

Destaque: "A ciência brasileira é tropical e precisa de soluções próprias; a agilidade na avaliação é o que permite competir globalmente", pontuou Mario Murakami.

Eficiência no campo e sustentabilidade industrial

O economista-chefe da Abiove, Daniel Furlan Amaral, trouxe para o debate a integração entre as cadeias produtivas. Ele analisou como a inovação na soja e no milho caminham juntas para otimizar o uso da terra. O sistema de sucessão de culturas no Brasil permite que o produtor extraia o máximo potencial de uma mesma área, o que é um exemplo global de sustentabilidade.

A verticalização da produção também foi pautada como forma de proteger a renda. Transformar o grão em proteína animal ou biocombustível agrega valor e reduz a dependência exclusiva das janelas de exportação. Daniel Amaral destacou que a indústria investe pesado em eficiência energética para acompanhar as demandas de descarbonização que chegam da China e da Europa.

Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, encerrou as apresentações focando na ponta da cadeia: o produtor rural. Para Silveira, a tecnologia só cumpre sua função social quando chega de forma acessível ao pequeno e médio agricultor. Ele sustentou que o futuro da segurança alimentar depende da capacidade de produzir mais sem ampliar a área plantada.

O foco total em eficiência produtiva permite que o Brasil continue batendo recordes de safra respeitando a preservação ambiental. Glauber destacou que o sorgo ganha relevância como cultura estratégica para a segurança alimentar, devido à sua rusticidade e baixo consumo hídrico. A integração entre ciência, diplomacia e produção rural foi o resumo das metas estabelecidas para o ciclo 2026/2027.

Atualmente, o Brasil possui 108 eventos de milho geneticamente modificado aprovados pela CTNBio para cultivo e consumo comercial.