"Eles precisam mais de nós": Pedro Lupion defende retaliação comercial em congresso da Abramilho.
Publicado em 13/05/2026 10h48

"Eles precisam mais de nós": Pedro Lupion defende retaliação comercial em congresso da Abramilho.

Em Brasília, lideranças do agro cobraram hoje (13) reciprocidade da UE e destacaram o milho como base para dobrar a produção de etanol no Brasil.
Por: Wisley Torales

Deputado Pedro Lupion e a Presidente Nacional da OCB Tânia Regina Zanella. Foto Abramilho

O Unique Palace, em Brasília, tornou-se o centro de uma discussão profunda sobre a autonomia do agronegócio nacional. Durante o primeiro painel do 4º Congresso da Abramilho, o tom diplomático deu lugar a uma postura mais assertiva por parte dos representantes do setor produtivo. O foco central não ficou restrito ao volume de safra, mas sim na capacidade do país em responder a pressões externas e consolidar sua industrialização interna.

A pauta de transformação da agricultura brasileira, debatida nesta manhã, trouxe à tona a necessidade de equilíbrio nas relações com o bloco europeu. Enquanto o governo detalha planos de infraestrutura, as entidades de classe focam na defesa comercial. A mensagem enviada ao mercado global é clara: o Brasil possui ferramentas jurídicas e econômicas para proteger sua competitividade.

O milho, protagonista do evento, foi apresentado como o combustível dessa nova fase soberana. A expansão das usinas de biocombustíveis e a abertura de novos canais regulatórios com a Ásia formam a base dessa estratégia. O objetivo é reduzir a dependência de decisões unilaterais de parceiros tradicionais que impõem barreiras sob justificativas ambientais.

Diplomacia de resultados e a Lei da Reciprocidade

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Pedro Lupion, conduziu uma das participações mais incisivas do congresso. Ele classificou as recentes exigências ambientais da União Europeia como táticas protecionistas disfarçadas. Para o parlamentar, o cenário atual exige que o Brasil utilize sua força como provedor global de alimentos para negociar em condições de igualdade.

Lupion sustentou que a relação comercial é desequilibrada em termos de dependência. Atualmente, a Europa absorve 16% das exportações do agronegócio brasileiro, um número expressivo, porém menor que os 52% direcionados à China. Essa diversificação de destinos permite ao Brasil uma margem de manobra maior para aplicar a Lei da Reciprocidade em caso de retaliações injustificadas.

A ferramenta legislativa mencionada pelo deputado visa garantir que as exigências impostas aos produtos brasileiros sejam as mesmas aplicadas aos produtores europeus. Se houver restrição ao grão ou à proteína animal nacional, o governo brasileiro terá respaldo para adotar medidas proporcionais. A estratégia busca evitar que o produtor rural pague a conta de barreiras técnicas que ignoram o Código Florestal Brasileiro.

Destaque: "A Europa precisa mais do Brasil do que o contrário", afirmou Pedro Lupion ao defender uma postura comercial menos passiva frente às exigências do bloco europeu.

A explosão industrial do etanol de milho

No campo da industrialização, o presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, apresentou projeções otimistas para o consumo interno do cereal. A indústria de etanol de milho consolidou-se como um dos pilares de sustentação dos preços no mercado doméstico. O processamento atual já supera as 20 milhões de toneladas anuais, mas o teto ainda está longe de ser atingido.

Bertolini destacou que, com a entrada em operação de novas plantas e a expansão de unidades já existentes, o setor deve dobrar sua capacidade. A meta é atingir o processamento de 40 milhões de toneladas de milho nos próximos anos. Esse movimento retira o excedente de exportação do mercado, reduzindo a exposição do produtor à volatilidade dos preços internacionais e aos altos custos do frete portuário.

Além do biocombustível, o processo gera o DDG (grãos de destilaria secos), um coproduto de alto valor proteico para a pecuária. Essa integração vertical permite que o milho saia da fazenda transformado em energia e carne, elevando o valor agregado da cadeia produtiva. A industrialização local é vista como o principal escudo contra crises externas de demanda.

Biotecnologia e alinhamento com a Ásia

A relação com a China também passou pelo crivo técnico da Abramilho. Paulo Bertolini defendeu que o Brasil avance em um modelo de reconhecimento mútuo de eventos biotecnológicos com o país asiático. Atualmente, a demora na aprovação de novas sementes e tecnologias na China atrasa o acesso do produtor brasileiro a materiais genéticos mais produtivos e resistentes.

O modelo sugerido toma como base a parceria já existente entre China e Argentina. Caso o Brasil consiga alinhar os marcos regulatórios, a aprovação de novas biotecnologias ocorreria de forma quase simultânea nos dois países. Isso eliminaria o vácuo de tempo entre o lançamento de uma tecnologia e sua aceitação no maior mercado consumidor de grãos do mundo.

Essa sincronia é considerada fundamental para manter a tendência de alta na produtividade do milho safrinha. Com variedades mais resistentes ao estresse hídrico e a pragas, o custo de produção por saca tende a ser menor. A estabilidade regulatória com Pequim garante que o fluxo de exportação não sofra interrupções por questões burocráticas de última hora.

Agenda legislativa e desafios financeiros

O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, ressaltou que a força do campo depende diretamente de um Congresso Nacional atuante. A entrega da "Agenda Legislativa do Agro 2026" simboliza esse esforço de coordenação. O documento contém as prioridades do setor, desde a reforma tributária até a segurança jurídica no campo.

Martins acentuou que o produtor rural enfrenta um cenário de pressão financeira devido ao aumento dos juros e ao endividamento crescente em algumas regiões. A preocupação foi validada por Luiz Pedro Poletti Bier, da Aprosoja MT, que destacou a realidade do Mato Grosso. Segundo ele, as margens apertadas das últimas safras exigem um Plano Safra mais robusto e focado na renegociação de dívidas.

Destaque: O setor produtivo aguarda um Plano Safra 2026/2027 com juros compatíveis com a rentabilidade da lavoura e maior aporte para o seguro rural.

Tania Zanella, representante do IPA/OCB, trouxe o foco para o cooperativismo como ferramenta de resiliência. Para ela, o acesso facilitado ao seguro rural é o ponto de maior urgência. Sem a garantia de cobertura para quebras climáticas, o risco financeiro afasta o investimento em tecnologia. O debate apontou que o seguro deve ser tratado como política de Estado, e não apenas como um benefício temporário.

As discussões do primeiro painel terminaram com o entendimento de que a soberania brasileira no agro se constrói com diplomacia firme e tecnologia aplicada. A união das entidades de classe em Brasília demonstra que o setor está preparado para enfrentar os desafios comerciais do próximo ciclo. A Agenda Legislativa do Agro 2026 foi entregue oficialmente às lideranças da Frente Parlamentar da Agropecuária ao fim da sessão.