
PARTE 1
Tem muito gestor público comprando ideias, palestras e projetos na ânsia de estar na ‘onda da moda’ ou para parecer que está no curso do ‘progresso’. Mas a verdade é que: mesmo estes incautos que fazem da maquiagem sua melhor performance pública, mesmo eles, têm caído no ‘canto da sereia’. Para uma cidade se denominar uma ‘Cidade Inteligente’ é preciso MUITO MAIS... mas muito, muito, muito esforço de FATO. O que antes passava como ‘tocar gado no campo’... vai indo tocando que se ajeitava, não é mais possível.
Os indicadores mensuráveis e auditáveis já são uma premissa para alçar mão de investimentos públicos e privados. Falei alguma novidade!? Não, claro que não! Mas a realidade parece cair sempre no mesmo looping da inércia.
Vou perguntar... Mas não me vejam como ingênua!
Por que TODA a obra pública precisa custar MAIS de 3,4,5,6...e mais vezes que a realidade??? E por que a qualidade da mesma (dado o custo), é entregue com 3,4,5,6, ...10 vezes inferior que a realidade (dado o valor que custou)??? E, por que, ainda por cima, qualquer obra pública demora 5,6,7,8, 9,...20 vezes mais que a realidade??? Por quê???
Estas deveriam ser as respostas que todo o gestor público deveria RESPONDER antes que abrir debate sobre qualquer conceito de Cidade Inteligente. Sou eu apenas que acha isso uma piada pronta!? Claro que não.
Não vejo a maioria dos veículos de imprensa questionar isso... O que seria, jornalismo básico.
Hoje, não vou versar sobre este ‘Modus Operandi’ (neste artigo). Você com certeza entende por que dessa introdução. Tudo que vou trazer sobre esse conceito, no final só tem vida se o Público e o Privado entrarem em equilíbrio na gestão da ética nesta relação.
Mas vamos andar para entender... O que é? Por que é necessário?
Como as cidades podem alcançar as diretrizes para se tornarem “Cidades Inteligentes’???
O conceito de Twin Transition (Transição Gêmea) é o "pulo do gato" para desmascarar a falsa inteligência urbana. É disso que falei acima... O conceito defende que a tecnologia (Digital) e a sustentabilidade (Verde) devem caminhar juntas, como trilhos de um trem. Se um lado corre e o outro pára...daí o sistema descarrila.
ESG COMO FUNDAMENTO DAS CIDADES INTELIGENTES
No Brasil, há a urgência de se autenticar um modelo legítimo. Por essa razão, entendo que o termo “Cidades Inteligentes”, mesmo tendo ganhado espaço nas agendas públicas e privadas, carrega uma falha conceitual recorrente: tratar o ESG como um adendo, quando na verdade ele é a espinha dorsal. Não há cidade inteligente sem compromisso ambiental, inclusão social e governança transparente. E não há como legitimar esse conceito sem reconhecer que o ESG é a base mestra de qualquer cidade que pretenda operar como ‘inteligente’. Fora isso, ela será apenas uma ‘aprendiz’ em aprendizado.
Dentro da instrumentação operacional, o ESG é o ‘Alicerce Estrutural’ e não uma opção semântica. Entenda que a escolha por tornar uma cidade inteligente há a implicação direta para que as ações propostas sejam materializadas e não fiquem só na intensão. Até que seja ‘esquecido’. (Isso lembra alguns cenários para você???)
O tripé ESG não é apenas uma diretriz ética; é o sistema operacional. Na dimensão ambiental, falamos de mobilidade de baixa emissão e redes elétricas inteligentes; no social, de equidade e conectividade culminando em economia circular; na governança, o uso de Big Data e IA para fiscalização e fortalecer a accountability (que significa: prestação de contas e à responsabilidade); assim se promove confiança institucional por trazer transparência real e não semântica.
E esse Tripé deve (ou deveria) provocar ações diretas de curto e médio prazo que tragam soluções de infraestrutura de qualidade e com a devida conservação sistemicamente. Para sair da retórica, trago exemplos brasileiros que transitaram da teoria à prática:
Curitiba (PR): Continua sendo o benchmark nacional. Nomeada Comunidade Inteligente do Ano em 2024 pelo Intelligent Community Forum (que é uma rede global com um think tank em seu centro), a cidade investe há décadas em planejamento urbano, transporte coletivo eficiente e preservação ambiental. O distrito industrial verde abriga mais de 3.500 empresas não poluentes.* O projeto da Pirâmide Solar do Caximba é o exemplo prático atual: transformou um antigo aterro sanitário em uma usina fotovoltaica.
Florianópolis (SC): O sistema Monitora evoluiu. Desde 2019, a prefeitura utiliza o sistema Monitora, que detecta desmatamento ilegal via satélite e drones, antecipando irregularidades e a deteriorização em até um ano. A cidade agora integra o uso de IA no saneamento básico, mantendo o foco na preservação tecnológica.
Porto Alegre (RS): Após as enchentes de 2024, a cidade tornou-se um laboratório de resiliência climática. A cidade testa a Bumerangue Tecnologias Ambientais, que transforma resíduos hospitalares em insumos reutilizáveis, gerando economia energética e reduzindo impacto ambiental. As diretrizes foram remodeladas sob o conceito de "Cidades Esponja", integrando gestão de resíduos e drenagem inteligente. (No entanto, ainda deixa o planejamento prévio, a previsibilidade e a efetivação de obras profundas para zerar o problema das enchentes, ainda a desejar. Aliás, MUITO a desejar. Quase um: Lamentável)
São Paulo(SP), Maringá(PR) e Caxias do Sul(RS): Avançam na eletrificação das frotas públicas. Em Cuiabá(MT), por exemplo, o desafio é integrar soluções de saneamento e energia solar em áreas periféricas, com apoio de PPPs e startups locais.
A "TWIN TRANSITION": O DIGITAL A SERVIÇO DO VERDE
É aqui que precisamos elevar o nível do debate. No conceito global Twin Transition (que citei acima); diz que, não existe transição digital sem transição verde. Uma cidade que se diz inteligente porque tem um aplicativo de agendamento de saúde, mas não trata o esgoto que corre na porta do cidadão, é apenas uma cidade analógica com maquiagem digital.
Há muitas outras cidades brasileiras que estão buscando seu ‘marco inicial’ dentro do Modelo de Cidade Inteligente, mas a maioria, ou a totalidade, não pode usar a denominação por que não são DE FATO. O Brasil é tão diverso e com tantas realidades culturais e socioeconômicas que ouso a dizer que podemos ser... se levarmos isso – realmente – a sério... um enorme LABORATÓRIO instrumental social e ambiental de exemplo para o mundo. (Sei que é otimismo demasiado, mas acredito na capacidade criativa do brasileiro). Teríamos que ajustar a governança que é hoje nosso maior ‘calcanhar de Aquiles’; por conta da ‘cultura do tirar vantagem’. Mas vamos seguir com o andor...
Vejamos exemplos do que acontece quando o digital e o verde se fundem de verdade:
AMÉRICA DO SUL: RESULTADOS CONCRETOS
Inovação não exige necessariamente "inventar" a roda. Mas que fique claro que não estou – desestimulando o NOVO – a invenção de algo que – efetivamente – ainda não existe é sensacional e necessária.
Mas, ao final, o que deve ser cobrado efetivamente - é a VONTADE real de solucionar os problemas. E não a solução em si, pois ela acaba por ficar apenas nas discussões acaloradas e de concreto só os ‘xingamentos’ entre vereadores nas Câmaras Municipais e deputados nas Assembleias Legislativas.
NÚMEROS ECONÔMICOS E O "PENSAR DÓI"
A realidade dos dados é implacável. Segundo o estudo Panorama Sustentabilidade Corporativa 2025, 76% das empresas brasileiras já implementam práticas sustentáveis com algum grau de maturidade. O faturamento das empresas participantes ultrapassa R$ 2,9 trilhões anuais.
Cidades com governança sólida atraem 3.2 vezes mais investimentos. No entanto, o gargalo ainda é a transparência: apenas 48% realizam benchmarking externo, e 58% apontam dificuldade em comprovar retorno financeiro das ações ESG.
Sem ESG, não há Cidade Inteligente. Ignorar isso é construir sobre areia e sem alicerce. As mudanças climáticas estão na nossa porta. O Brasil parece estar amorfo a isso, pensando que ‘vai passar’. NÃO, não vai!
Como disse Érico Veríssimo no livro Olhai os Lírios do Campo: "Precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu."
A pressa que se faz devagar, como ensinou Simões Lopes Neto, é o caminho da ação consciente. Pensar dói, mas não fazê-lo... pode tornar os "idiotas” certos e donos do nosso futuro!! ☹
O que mais precisa ser dito, para cada um de nós entender que: quem faz ou não algo por nós, está lá por nossa própria responsabilidade...
E se não cobramos!? Daí, se reclama por quê??
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KÁTYA DESESSARDS | Jornalista, Conselheira e Mentora em ESG e Comunicação Estratégica. Integra o Institute On Life e a Consultoria Vantwork - Co-Autora no livro: Gestão! Como Evoluir em uma Nova Realidade? Experiência de 28 anos em diversos setores do mercado. | Quer Saber Mais? CLICK AQUI
Dúvidas, Sugestões & envio de Cases sobre ESG: katyadesessards@gmail.com.br