Déficit de armazenagem atinge 135 milhões de toneladas de grãos
Publicado em 30/04/2026 17h12

Déficit de armazenagem atinge 135 milhões de toneladas de grãos

Kepler Weber estima que Brasil precisa de R$ 148 bilhões para zerar déficit de 135 milhões de toneladas na armazenagem de grãos nesta safra 2025/26.
Por: Redação

A infraestrutura logística do agronegócio brasileiro enfrenta um desafio de proporções continentais para sustentar o ritmo de crescimento do campo. Um levantamento recente da Kepler Weber indica que o país necessita de um aporte de R$ 148 bilhões para solucionar a carência de silos nesta temporada. A empresa, referência na América Latina em pós-colheita, aponta que a falta de espaço atinge 135 milhões de toneladas de grãos.

Este volume expressivo sem abrigo adequado representa uma ameaça direta à rentabilidade do produtor rural e à eficiência da cadeia exportadora. O déficit atual é comparável ao tamanho de toda a produção anual de grãos da Argentina, conforme destacado pela companhia. Enquanto a produtividade dentro da porteira atinge recordes sucessivos, a logística externa falha em acompanhar essa evolução.

Para a safra 2025/26, as projeções da Cogo Inteligência de Mercado indicam que o Brasil deve colher 357 milhões de toneladas de grãos. No entanto, a capacidade estática instalada para armazenar essa produção é de apenas 223 milhões de toneladas. Essa conta negativa gera um gargalo que compromete a qualidade do produto e o planejamento das vendas.

O DESCOMPASSO ENTRE PRODUÇÃO E ESTRUTURA

Os dados revelam uma assimetria preocupante entre o crescimento da colheita e a expansão dos armazéns no território nacional. Enquanto a produção de grãos avança a uma taxa média de 4,4% ao ano, a capacidade estática cresce somente 2,4% no mesmo período. Essa diferença acumulada torna a situação cada vez mais delicada a cada novo ciclo produtivo.

O estado do Mato Grosso, principal motor da produção de soja e milho no país, concentra o maior número de unidades armazenadoras. Contudo, mesmo na liderança, a estrutura local é insuficiente para dar conta do volume total colhido. Em muitas regiões, a ausência de silos obriga o armazenamento temporário a céu aberto, aumentando o risco de perdas.

NÚMEROS DO GARGALO LOGÍSTICO:

  • Investimento necessário: R$ 148 bilhões

  • Déficit de capacidade: 135 milhões de toneladas

  • Crescimento da produção: 4,4% ao ano

  • Expansão da armazenagem: 2,4% ao ano

A carência de estrutura não gera perdas físicas apenas, mas também um custo financeiro elevado para os agricultores. Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber, salienta que o setor comprovou eficiência produtiva, mas sofre com este obstáculo logístico. Sem silos suficientes, o produtor perde o poder de escolha sobre o melhor momento para comercializar sua safra.

O MODELO DE ARMAZENAGEM DENTRO DA FAZENDA

Um dos pontos mais sensíveis da estratégia brasileira é a baixa presença de silos dentro das propriedades rurais. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que apenas 16% das unidades de armazenamento estão nas fazendas. A maioria da estrutura disponível está concentrada em cooperativas, tradings ou terminais logísticos distantes do campo.

A comparação com outros grandes produtores mundiais evidencia o atraso do modelo brasileiro nesta área específica. Nos Estados Unidos, por exemplo, o produtor detém 65% da capacidade de armazenagem dentro da própria fazenda. Essa autonomia permite uma gestão muito mais eficiente do pós-colheita e reduz a pressão sobre a infraestrutura de transporte.

A ampliação da capacidade estática nas propriedades é vista como um caminho para reduzir a dependência de intermediários. Além disso, o armazenamento próprio minimiza a necessidade de fretes imediatos durante o pico da colheita. O controle da temperatura e a termometria digital, especialidades da Kepler Weber, garantem que o grão mantenha o padrão comercial por mais tempo.

IMPACTOS NA CADEIA DE TRANSPORTES E PORTOS

A falta de silos faz com que o caminhão seja utilizado como uma unidade de armazenagem móvel. Esse fenômeno pressiona as tarifas de frete rodoviário, uma vez que a demanda por veículos dispara em curtos períodos. As filas nos portos e terminais ferroviários tornam-se inevitáveis quando a carga não tem onde esperar pela janela de embarque.

Este cenário sobrecarrega toda a cadeia logística nacional e eleva o custo Brasil, afetando a competitividade no exterior. A pressão logística reflete diretamente no lucro líquido do agricultor, que acaba pagando mais caro pelo transporte e recebendo menos pelo grão. O investimento em infraestrutura estática é, portanto, um fator de estabilidade para os preços do frete.

A infraestrutura de pós-colheita é determinante para que o país consiga gerenciar grandes volumes de exportação sem colapsar as estradas. A tecnologia aplicada aos silos modernos permite uma conservação superior, evitando o descarte de grãos avariados. O desenvolvimento deste setor é uma das pautas prioritárias para garantir que o crescimento da safra resulte em riqueza efetiva para o país.

A Kepler Weber destaca que as soluções de termometria digital são aliadas na preservação da qualidade do estoque. A digitalização do pós-colheita permite o monitoramento remoto das condições de umidade e calor dentro das células de armazenagem. A modernização dessas plantas é tão necessária quanto a construção de novas unidades para suprir a demanda.

O déficit logístico de 135 milhões de toneladas de grãos impõe um desafio de gestão que afeta desde o frete rodoviário até a operação dos terminais portuários.