Alerta no campo: Rússia prorroga controle sobre embarques de insumos
Publicado em 23/04/2026 11h14

Alerta no campo: Rússia prorroga controle sobre embarques de insumos

Rússia prorroga cota de exportação de 20 milhões de toneladas de adubos até novembro de 2026 para garantir oferta interna, informou a agência Interfax.
Por: Redação

O governo da Rússia oficializou a prorrogação da sua política de restrição às exportações de fertilizantes minerais. O novo período compreende o intervalo entre 1º de junho e 30 de novembro de 2026, com um limite global estabelecido em 20 milhões de toneladas. A medida, reportada pela agência russa Interfax, visa blindar o mercado interno do país contra a volatilidade externa e garantir o abastecimento dos agricultores locais.

A estratégia russa de adotar cotas não é inédita, sendo aplicada sistematicamente desde 2021. No entanto, o novo volume é superior à cota atual de 18,7 milhões de toneladas, que vigora até o final de maio. O detalhamento do anúncio mostra uma divisão técnica rigorosa: serão permitidos os embarques de 8,7 milhões de toneladas de nitrogenados e 7 milhões de toneladas de fertilizantes complexos.

Um dos pontos de maior atenção para o mercado global é a liberação monitorada do nitrato de amônio. As vendas externas desse insumo específico estavam suspensas até a última terça-feira (21/04). Com a nova resolução, o país poderá exportar até 4,2 milhões de toneladas do produto no segundo semestre. A Rússia detém uma posição determinante no setor, sendo a segunda maior produtora mundial e responsável por cerca de 20% de todo o comércio global de nutrientes.

DADO ESTRATÉGICO: Cerca de 50% da oferta global de ureia e enxofre transita pelo Estreito de Ormuz, região que enfrenta severos entraves logísticos devido aos conflitos militares no Oriente Médio.

O cenário geopolítico atua como um catalisador para a instabilidade. O fechamento parcial e a insegurança no Estreito de Ormuz afetaram diretamente a disponibilidade de nitrogenados, cuja produção depende do gás natural extraído na região. Essa disrupção logística, somada ao controle de oferta imposto pelos russos, criou um ambiente de preços elevados que desafia o planejamento financeiro das fazendas brasileiras.

De acordo com dados do CME Group, a ureia granular nos portos do Oriente Médio registrou uma valorização de 75% desde o início das tensões militares. Esse movimento atípico quebra a sazonalidade tradicional do mercado. Em anos de estabilidade, o segundo trimestre costuma ser uma janela de oportunidade para o produtor brasileiro adquirir insumos com preços mais brandos, aproveitando a menor demanda global.

Em relatório recente, a consultoria StoneX destacou que este padrão histórico foi profundamente alterado em 2026. A combinação de redução na produção em plantas específicas, dificuldades no escoamento pelo Oriente Médio e a escalada nos preços diminuiu a probabilidade de um segundo trimestre favorável para compras. O analista de inteligência de mercado da consultoria, Tomás Pernías, aponta que o momento exige cautela extrema e monitoramento diário.

DESTAQUE: No mercado de nitrogenados, a volatilidade elevada ainda permite correções pontuais, mas o segmento de fosfatados apresenta uma oferta global ainda mais restrita e preocupante.

A situação dos fosfatados é agravada por fatores que vão além da crise no Oriente Médio. Planos de manutenção industrial em grandes polos produtores, como o Marrocos, e as incertezas persistentes sobre o apetite exportador da China mantêm o estoque mundial em níveis baixos. Para a StoneX, existe um risco concreto de "destruição de demanda" ao longo de 2026, termo técnico utilizado quando o preço do insumo torna a atividade produtiva inviável, forçando o agricultor a reduzir a tecnologia aplicada ou a área de plantio.

O impacto para o Brasil é direto, visto que o país importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. A dependência externa expõe o agronegócio nacional a decisões políticas tomadas em Moscou e a conflitos em rotas marítimas distantes. O RaboResearch Alimentos e Agronegócio, braço de pesquisa do Rabobank, emitiu um alerta na última semana indicando que a disponibilidade global de fertilizantes deve atingir um nível recorde de baixa neste ano.

Segundo o Rabobank, a crise de oferta em 2026 consegue ser mais severa do que a observada em 2022, ano marcado pelo início do conflito na Ucrânia que desestabilizou as cadeias globais de suprimentos. Naquele período, houve uma corrida por estoques e preços recordes, mas a capacidade de produção global apresentava sinais de recuperação mais rápidos do que os observados no atual ciclo de tensões.

O mercado de nitrogenados, embora apresente alguma possibilidade de correção caso o Estreito de Ormuz seja reaberto com segurança total, permanece sob a sombra dos custos de energia. O gás natural é a principal matéria-prima para a síntese da amônia, e qualquer oscilação no mercado de energia reflete imediatamente no preço final do adubo entregue nos portos de Paranaguá (PR) e Santos (SP).

A logística interna russa também desempenha papel fundamental na manutenção das cotas. O governo de Vladimir Putin prioriza o escoamento ferroviário para suas próprias regiões agrícolas, deixando o excedente para as janelas de exportação permitidas. Esse controle rígido serve como ferramenta de diplomacia econômica e proteção contra a inflação de alimentos dentro da Rússia.

As margens agrícolas no Brasil já se encontram pressionadas por preços de commodities menos agressivos na comparação com anos anteriores. Com a alta nos fertilizantes, o custo de produção por hectare sobe, exigindo que o produtor rural seja cirúrgico na gestão de compras. Especialistas recomendam que a aquisição seja feita de forma escalonada, evitando a exposição total do capital em momentos de picos de preço.

O acompanhamento das exportações chinesas será o próximo grande indicador para o mercado. Caso a China decida manter suas restrições para priorizar o uso doméstico de fosfatados, a pressão sobre os estoques mundiais será mantida até o final do ano. A decisão russa de estender as cotas até novembro garante que o mercado terá previsibilidade de volume, mas sob um teto que impede qualquer alívio expressivo nos preços globais.