O mercado da soja vive dias de pessimismo nas bolsas internacionais e nas praças brasileiras. Em Chicago, os contratos futuros para maio e julho registraram perdas significativas, influenciados por um conjunto de fatores que apontam para uma oferta global abundante frente a uma demanda externa que dá sinais de fadiga. Dados da TF Agroeconômica mostram que o recuo se estendeu também aos subprodutos, como o farelo e o óleo de soja.
A principal surpresa veio do relatório de progresso de safra do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O documento revelou que o plantio norte-americano já atingiu 6% da área prevista, um ritmo superior às expectativas do mercado e à média histórica para o período. Esse "arranque" precoce reduz os prêmios de risco e sinaliza uma safra que pode entrar no mercado com força total se o clima colaborar.
Somando-se ao cenário nos EUA, o Brasil reforça a pressão de oferta. A revisão da safra brasileira elevou a estimativa de produção para impressionantes 179,15 milhões de toneladas. No entanto, o fator que mais surpreendeu negativamente os operadores foi o desempenho das importações chinesas. Em março, a China adquiriu 4,02 milhões de toneladas, volume que ficou aquém das projeções e acendeu o alerta sobre o apetite do maior comprador mundial de oleaginosas.
ALERTA DE RENTABILIDADE: No Brasil, a combinação de câmbio abaixo de R$ 5,00, fretes elevados e o aumento no custo do diesel está corroendo a rentabilidade, especialmente para produtores com maior endividamento.
Regionalmente, os desafios no Brasil são distintos. No Rio Grande do Sul, onde a colheita chega a 38%, a produtividade média foi revisada para baixo (2.871 kg/ha) devido à irregularidade das chuvas. No Paraná, o problema é o excesso de grãos: a safra elevada esbarra na limitação da capacidade de armazenagem, o que força vendas a preços mais baixos para liberar espaço nos silos.
No Centro-Oeste, a situação não é diferente. Mato Grosso do Sul registra um ritmo lento de comercialização, enquanto em Mato Grosso a queda de preços é generalizada. Em ambos os estados, o "apagão logístico" causado pelo frete caro e pela falta de armazéns estruturais segue como o principal gargalo para o escoamento da safra recorde.
A perspectiva para as próximas semanas é de manutenção da volatilidade, com o mercado monitorando atentamente se a China retomará as compras em volumes maiores ou se o excesso de soja no Hemisfério Sul continuará forçando as cotações para baixo.