Além do combustível: etanol de milho impulsiona coprodutos e exportação
Publicado em 10/04/2026 03h00

Além do combustível: etanol de milho impulsiona coprodutos e exportação

O etanol de milho consolidou-se como pilar estratégico no Brasil, integrando a produção de energia, grãos e insumos proteicos para nutrição animal.
Por: Redação

O cenário do agronegócio brasileiro atravessa uma mudança estrutural profunda na última década. O milho, tradicionalmente visto como uma commodity de exportação bruta, assumiu o posto de "novo ouro" ao impulsionar a indústria de biocombustíveis. A análise de Maria Flávia Tavares, economista e doutora em agronegócios, aponta que o etanol de milho deixou de ocupar um papel secundário para se tornar o elo de integração entre as cadeias de energia e proteína animal.

Este movimento é sustentado por números robustos na produção de grãos. O Brasil consolidou sua posição como o terceiro maior produtor mundial de milho, registrando um crescimento de 40% no volume colhido nos últimos dez anos. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ilustram esse salto: a produção saltou de 42,5 milhões de toneladas na safra 2005/06 para expressivos 131,8 milhões em 2022/23. Para o ciclo 2024/25, a estimativa é de que o país atinja a marca de 139,7 milhões de toneladas.

A expansão da indústria de etanol de milho atua como um mecanismo de equilíbrio de mercado. Ao absorver os excedentes de produção, as usinas evitam a depressão dos preços do grão e transformam a matéria-prima em biocombustível e coprodutos de alto valor agregado. Esse processo fortalece o mercado interno e reduz a dependência exclusiva das janelas de exportação do grão in natura.

Um dos maiores trunfos dessa verticalização são os coprodutos conhecidos como DDG (Grãos de Destilaria Secos), DDGS (com solúveis) e WDG (úmidos). Esses insumos tornaram-se fontes proteicas indispensáveis na nutrição de bovinos, suínos, aves e peixes. Em muitas dietas formuladas para pecuária de corte e leite, o DDGS já é utilizado como uma alternativa eficiente e economicamente viável ao farelo de soja.

O Brasil iniciou a exportação de DDGS para a China em 2023, com um embarque de 62 mil toneladas, abrindo uma nova frente de divisas para o subproduto industrial.

A abertura de novos mercados internacionais, como as Filipinas, reforça o potencial global dos coprodutos brasileiros. Instituições como a União Nacional do Etanol de Milho (Unem) e a ApexBrasil têm trabalhado na promoção desses insumos sustentáveis, atendendo à crescente demanda mundial por eficiência na produção de proteína animal. O Brasil deixa de exportar apenas energia calórica para entregar inteligência nutricional em forma de farelo.

Geograficamente, a liderança da produção permanece concentrada no Centro-Oeste. Mato Grosso encabeça a lista de maiores produtores, seguido de perto por Mato Grosso do Sul e Goiás. Entretanto, o modelo de usinas flex e exclusivas de milho começa a se expandir para novos estados, indicando que a descentralização industrial é o próximo passo para otimizar os custos logísticos de transporte do grão.

A transformação do milho em etanol e proteína animal dentro das fronteiras brasileiras gera empregos, arrecadação de impostos e agrega valor à produção primária. O grão deixa de ser um item de baixo valor unitário na balança comercial para compor um sistema industrial sofisticado. Essa mudança de paradigma assegura uma maior resiliência ao produtor rural diante das volatilidades do mercado internacional.

O futuro da cadeia aponta para uma integração ainda mais estreita com a sustentabilidade. O uso de biomassa para alimentar as caldeiras das usinas e a captura de carbono no processo produtivo conferem ao etanol de milho brasileiro uma das menores pegadas ambientais do planeta. Com a estimativa de safra recorde para 2025, o setor sucroenergético baseado em grãos prepara-se para novos investimentos em capacidade de moagem.

Dessa forma, o milho deixa de ser apenas uma planta cultivada para exportação e passa a ser o motor de uma bioeconomia circular, onde nada se perde e tudo se transforma em valor para o agronegócio nacional.