
Foto: Ricado Stuckert / PR
O cenário de instabilidade no mercado de energia, agravado pelo conflito no Oriente Médio, colocou o governo brasileiro em rota de colisão com as dinâmicas de mercado da Petrobras. Em entrevista à TV Record Bahia, o presidente Lula declarou guerra ao recente leilão de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), que vendeu o produto às distribuidoras com preços até 100% superiores à tabela oficial da estatal. Lula classificou a operação como "bandidagem" e afirmou que a medida foi tomada contra a orientação direta da direção da companhia e do Executivo.
Atualmente, o preço de venda do GLP pela Petrobras às distribuidoras está congelado desde novembro de 2024. No entanto, a estratégia de leilões com alto ágio tem sido utilizada como um mecanismo indireto para alinhar o preço nacional ao mercado internacional, que sofre com a volatilidade do petróleo devido à guerra no Irã. Lula criticou duramente a disparidade entre o preço na refinaria (cerca de R$ 37 por botijão) e o valor pago pelo consumidor final, que chega a R$ 160 em algumas regiões, apontando lucros excessivos na cadeia de distribuição.
Como resposta imediata para conter a inflação e proteger o poder de compra das famílias de baixa renda, o presidente confirmou que o governo federal publicará, ainda esta semana, uma Medida Provisória (MP) criando um subsídio ao diesel importado. O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, e a meta é oferecer um desconto de R$ 1,20 por litro para neutralizar o impacto da escalada dos preços internacionais sobre o frete e os alimentos.
Lula voltou a utilizar o palanque para criticar as privatizações ocorridas em governos anteriores, especialmente a venda da BR Distribuidora em 2019 e da Refinaria de Mataripe (antiga RLAM) na Bahia em 2021. Segundo o presidente, a ausência de uma distribuidora estatal impede o governo de atuar como regulador de preços na ponta final do consumo. Ele revelou que há estudos avançados para a recompra da refinaria baiana, alegando que a unidade opera atualmente com menos da metade de sua capacidade produtiva.
O argumento central do governo é que o aumento da produção nacional de refino é a única forma sustentável de reduzir a dependência dos 30% de diesel importado, que hoje chega ao Brasil com preço de mercado internacional ("Preço de Paridade de Importação"). Para Lula, o povo brasileiro "não pagará o preço dessa guerra", referindo-se aos conflitos externos. Ele também acusou postos de combustíveis de aumentarem preços de gasolina e álcool sem necessidade técnica, chamando a prática de especulativa.
O programa Gás do Povo, que substituiu o Auxílio Gás, segue como a principal ferramenta social para garantir o botijão gratuito a famílias vulneráveis, mas o presidente reforçou que o subsídio e a anulação do leilão são medidas estruturais para evitar que o custo da energia descontrole o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA). A Petrobras ainda não se manifestou oficialmente sobre as condições técnicas que levaram ao ágio no certame de GLP.