Alta dos fretes força repasse de custos na indústria de frango de corte.
Publicado em 02/04/2026 09h32

Alta dos fretes força repasse de custos na indústria de frango de corte.

A trajetória de queda nos preços da carne de frango foi interrompida no final de março de 2026, impulsionada pelo encarecimento do diesel e dos fretes decorrentes das tensões globais no mercado de petróleo.
Por: Wisley Torales

Após um primeiro trimestre marcado por desvalorizações acentuadas, o mercado de frango de corte mudou de direção nos últimos dias de março. O movimento de baixa, que acumulou uma queda expressiva de 9,4% entre janeiro e março na Grande São Paulo, foi estancado por um fator externo à produção: o custo logístico. Segundo pesquisadores do Cepea, a valorização do petróleo no cenário internacional, motivada pelo conflito no Oriente Médio, elevou o preço do diesel no Brasil e forçou o repasse imediato dos fretes para a proteína.

Até o dia 19 de março, o frango congelado no atacado paulista registrava uma desvalorização acumulada de 6,2% no mês, reflexo de um descompasso entre a oferta abundante e a demanda interna ainda retraída. No entanto, a forte reação observada entre os dias 24 e 31 de março mudou o fechamento do balanço mensal, que encerrou com uma variação negativa quase nula, de apenas 0,3%. Esse "repique" de preços demonstra a sensibilidade da cadeia avícola aos custos operacionais de transporte.

Os agentes da indústria, pressionados pelas margens estreitas, iniciaram um movimento de repasse dos gastos com frete para os preços de venda no atacado. Praticamente todos os cortes e produtos acompanhados pelo Cepea apresentaram altas significativas na última semana do mês, sinalizando que o período de carne barata pode estar encontrando um piso de sustentação ditado pelo custo da energia e dos combustíveis.

Oferta e demanda: o desafio do primeiro trimestre

O cenário baixista que predominou no início de 2026 foi alimentado por uma oferta de carne de frango que superou a capacidade de absorção do mercado doméstico. Durante os meses de janeiro e fevereiro, o excesso de produção nas granjas pressionou as cotações, gerando um alívio temporário para o consumidor final, mas apertando a rentabilidade dos frigoríficos. Esse desequilíbrio entre o que é produzido e o que o brasileiro consegue consumir foi o principal motor da queda de quase 10% no trimestre.

A interrupção dessa queda no final de março, no entanto, não significa necessariamente um aquecimento súbito do consumo, mas sim uma necessidade de sobrevivência da indústria diante da inflação logística. O encarecimento do diesel S10 atinge em cheio a distribuição capilar da avicultura, que depende de frotas refrigeradas para o transporte de produtos frescos e congelados.

Para o mês de abril, a tendência é de cautela. O mercado observa se o consumidor terá fôlego para absorver os repasses de custos ou se a demanda voltará a esfriar, forçando novas promoções. A variável "petróleo" continua sendo a grande incógnita; enquanto o conflito no Irã mantiver os preços da energia em patamares elevados, o custo de levar o frango da granja ao supermercado continuará exercendo pressão de alta sobre as gôndolas.