O mercado brasileiro de óleo de soja encerrou o mês de março em trajetória de valorização, consolidando o maior patamar de preços desde o final de 2025. De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o óleo bruto degomado na região de São Paulo atingiu R$ 6.953,38 por tonelada no dia 24 de março. O movimento reflete uma combinação estratégica entre a política energética nacional e a instabilidade nos mercados globais de combustíveis fósseis.
O principal driver interno para essa valorização é a expectativa do setor em relação ao aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel comum, passando de 15% (B15) para 16% (B16). Embora a transição estivesse prevista para o início do mês, a implementação efetiva ainda aguarda definições governamentais, mantendo a indústria de esmagamento em compasso de espera. Essa "demanda represada" gera um suporte nas cotações, uma vez que as usinas precisam garantir estoques de matéria-prima para atender ao novo cronograma.
No cenário externo, a crise no Oriente Médio e a consequente volatilidade do petróleo reforçam o interesse global por fontes renováveis. Com o barril de petróleo operando em patamares elevados, o biodiesel derivado da soja torna-se uma alternativa econômica e ambientalmente estratégica. Essa correlação direta entre energia e alimentos mantém os preços do óleo de soja sensíveis aos desdobramentos geopolíticos, especialmente no Golfo Pérsico.
Apesar da tendência de alta, o avanço dos preços no mercado doméstico tem ocorrido com moderação. O principal fator de contenção é a própria indefinição sobre o B16; sem a confirmação oficial da data de início da nova mistura, parte das indústrias prefere não realizar compras agressivas no curto prazo. Esse comportamento cauteloso evita picos especulativos, mantendo a liquidez do mercado em níveis estáveis enquanto se aguarda o anúncio do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
Para o produtor rural e para a indústria de esmagamento, o atual patamar de quase R$ 7 mil por tonelada representa uma recuperação importante das margens de lucro. O valor é o mais alto registrado desde 1º de dezembro do ano passado, período em que as cotações flutuavam acima dessa marca devido às incertezas da safra de verão. Agora, o fundamento é o consumo industrial, consolidando o óleo de soja como um ativo energético de primeira ordem na economia brasileira.
A tendência para as próximas semanas aponta para uma manutenção da volatilidade. Agentes do setor monitoram de perto os leilões de biodiesel e a paridade de exportação, que também exerce influência sobre os estoques internos. Se a mistura B16 for oficializada nos próximos dias, especialistas preveem um novo ciclo de valorização, impulsionado pela necessidade de processamento de maiores volumes de grãos para atender à demanda de transporte e logística nacional.
O fortalecimento do complexo soja via biocombustíveis reafirma o compromisso do agronegócio brasileiro com a descarbonização da matriz de transportes. O uso do óleo de soja para a produção de energia reduz a dependência de derivados importados de petróleo e agrega valor à soja produzida em estados como Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. A integração entre campo e usina é o que garante a resiliência do setor diante das crises externas de abastecimento.
O acompanhamento técnico do Cepea ressalta que o óleo de soja deixou de ser apenas um subproduto da produção de farelo para se tornar o protagonista da rentabilidade industrial. A convergência entre segurança alimentar e segurança energética é o novo paradigma que define os preços no Brasil. Com os desdobramentos geopolíticos e as decisões de Brasília no radar, o mercado de soja caminha para um encerramento de safra com foco total na transição energética sustentável.