A crise que atinge o agronegócio brasileiro ganhou força recente, mas suas origens remontam a um processo gradual de mudanças no crédito e na estrutura de custos do setor. A análise é de Isabella Cristina Soares, especialista em crédito estruturado no agronegócio.
Segundo a avaliação, o movimento começa entre 2017 e 2019, período marcado por crescimento consistente, aumento de produtividade e expansão do crédito rural. O cenário favoreceu ganhos de escala e melhora nos resultados dos produtores, abrindo espaço para um ciclo mais agressivo de investimentos.
Na safra 2020/21, o setor entrou em uma fase de forte rentabilidade, impulsionada por preços elevados da soja e ampla oferta de crédito, inclusive com maior participação de instrumentos privados. O ambiente reduziu a percepção de risco e estimulou a contratação de volumes maiores de financiamento, dando início a um processo de alavancagem estrutural.
Nos ciclos seguintes, especialmente em 2021/22, houve uma elevação expressiva dos custos de produção, com destaque para fertilizantes e combustíveis. Apesar disso, os preços ainda elevados mantiveram margens altas, o que acabou mascarando a mudança no patamar de custo.
Em 2022/23, os primeiros sinais de alerta surgiram com a queda nos preços e redução das margens, enquanto o endividamento continuava em expansão. Já na safra 2023/24, a combinação de preços mais baixos, produtividade impactada em algumas regiões e dívidas vencendo levou à ruptura financeira em diversas operações.
O cenário se intensifica entre 2024 e 2026, com crédito mais restrito, margens comprimidas e aumento de renegociações e inadimplência. A avaliação aponta que a crise não decorre apenas da queda de preços, mas da combinação entre crédito abundante no passado, aumento estrutural de custos e decisões tomadas sob uma leitura equivocada do ciclo.