Bezerro a R$ 3.253 faz criador segurar fêmeas e mudar ciclo do boi
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Publicado em 19/03/2026 12h13

Bezerro a R$ 3.253 faz criador segurar fêmeas e mudar ciclo do boi

O abate de fêmeas saltou 18,2% em 2025, impulsionando o recorde de 42,94 milhões de cabeças, mas a valorização do bezerro sinaliza retenção para 2026.
Por: Wisley Torales

O fechamento dos dados pecuários de 2025 consolidou um cenário de intensa movimentação nos currais brasileiros. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país atingiu a marca histórica de 42,94 milhões de cabeças abatidas, somando machos e fêmeas. O número representa uma expansão de 8,2% no comparativo com 2024, resultando em uma oferta de 11,09 milhões de toneladas de carcaças.

Esse desempenho foi sustentado, prioritariamente, pelo descarte massivo de matrizes. O abate de vacas registrou uma alta de 18,2% no acumulado do ano passado. Somente no quarto trimestre, o setor processou 3,1 milhões de fêmeas, volume 17% superior ao mesmo período do ano anterior. O movimento evidencia o auge do ciclo de baixa da pecuária, onde a desvalorização da cria forçou o produtor a enviar fêmeas ao gancho.

A Scot Consultoria observa que, embora o volume de abates tenha sido recorde, os preços da arroba demonstraram uma firmeza inesperada ao longo de 2025. Esse comportamento do mercado acelerou a decisão de descarte, uma vez que o valor de venda da vaca gorda apresentava atratividade momentânea frente aos custos de manutenção de planteis menos produtivos.

INDICADOR CEPEA: A arroba do boi gordo saltou de R$ 309,20 para R$ 347,70 em doze meses, refletindo o ajuste entre oferta e demanda global.

A Virada do Ciclo em 2026

O cenário desenhado para o decorrer de 2026 aponta para uma inversão de tendência. Analistas de mercado indicam que o setor entra agora na fase de retenção de matrizes. O principal combustível para essa mudança é a valorização expressiva do bezerro. No Mato Grosso do Sul, o animal de reposição que custava R$ 2.704,26 há um ano, hoje é negociado na casa dos R$ 3.253,44.

Com o bezerro mais caro, o criador recupera o estímulo para manter a vaca na fazenda e produzir novos animais. Esse processo de retenção diminui a oferta imediata de fêmeas para os frigoríficos. A estimativa da Scot Consultoria projeta uma queda de 7% no volume total de abates para este ano, sinalizando o início de uma oferta mais restrita de carne no mercado físico.

O analista Felipe Fabbri destaca que esse ajuste é típico da dinâmica plurianual da pecuária de corte. Quando o preço da reposição sobe, a fêmea deixa de ser "mercadoria de corte" e volta a ser "fábrica de bezerros". Essa transição impacta diretamente a indústria, que passa a disputar com maior intensidade os lotes de machos terminados para manter as escalas de abate.

Impactos no Consumo e Varejo

Apesar da expectativa de menor oferta de animais, o repasse de preços ao consumidor final deve ocorrer de forma moderada. O mercado avalia que as altas expressivas já foram absorvidas entre 2024 e 2025, quando a arroba subiu de patamares próximos a R$ 230 para os atuais R$ 350 em São Paulo. O teto do poder de compra da população limita reajustes agressivos nas gôndolas.

No varejo paulista, o comportamento dos cortes foi heterogêneo no último ciclo. Itens como o cupim e o lombinho registraram valorizações superiores a 11%, enquanto cortes nobres como o filé mignon com cordão apresentaram queda de 12,7%. Essa variação mostra um ajuste de consumo, onde a demanda interna flutua conforme a disponibilidade de renda e as promoções das redes de distribuição.

LIDERANÇA GLOBAL: O Brasil consolidou-se como o maior exportador mundial de carne bovina, superando os Estados Unidos em volume de embarques.

Rentabilidade e Desafios de Recria

Para o pecuarista, 2026 reserva perspectivas de rentabilidade positiva, mas com ressalvas pontuais. O produtor de cria é o mais beneficiado pela valorização do bezerro. Já para quem atua na recria e engorda, a margem financeira tende a ficar mais estreita. Isso ocorre porque o custo de aquisição da reposição subiu de forma mais acelerada que o preço da arroba do boi gordo.

A eficiência produtiva passa a ser a ferramenta de defesa do invernista. Com o ágio do bezerro elevado, o ganho de peso em menor tempo e a otimização das pastagens tornam-se essenciais para manter o lucro. A dependência do mercado de reposição exige que o recriador tenha uma gestão financeira rigorosa para não comprometer o capital de giro na compra dos novos lotes.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) já havia antecipado a liderança brasileira no fornecimento global de proteína vermelha. Mesmo com a projeção de queda no abate para este ano, a posição do Brasil como "player" central no comércio internacional permanece inalterada, impulsionada pela sanidade do rebanho e pela capacidade de atendimento a mercados exigentes como a China e o Oriente Médio.

Conforme os dados oficiais do IBGE, a produção de carne bovina em 2025 fechou em 11,09 milhões de toneladas. No encerramento do primeiro trimestre de 2026, o mercado monitora a velocidade da retenção de fêmeas nas principais praças pecuárias, fator que definirá a intensidade da oferta de carne para o segundo semestre e o comportamento das exportações.