O mercado de insumos agrícolas vive dias de extrema volatilidade após o agravamento das tensões no Oriente Médio. O impacto nas cadeias de suprimento foi imediato e severo: nos portos brasileiros, a ureia registrou alta superior a 15%, enquanto o nitrato de amônio disparou cerca de 28%, com um salto que ultrapassou os US$ 100 por tonelada em apenas sete dias. Os dados, analisados pela consultoria StoneX, acendem um alerta para o planejamento das safras de 2026.
A disparada não é apenas especulativa, mas fundamentada em interrupções reais na produção e na logística. Ataques recentes no Catar provocaram uma redução direta na fabricação de nitrogenados, diminuindo a disponibilidade global. Além disso, a navegação no Estreito de Hormuz — artéria vital para o escoamento de fertilizantes, gás natural e enxofre — está sob ameaça, o que trava o fluxo de mercadorias que saem dos maiores produtores mundiais.
Segundo Tomás Pernías, analista da StoneX, o "apagão" de ofertas é uma estratégia de defesa dos fornecedores. "Muitos retiraram suas ofertas enquanto aguardam clareza sobre a situação. O Oriente Médio responde por cerca de 40% das exportações mundiais de ureia, e qualquer interrupção prolongada redesenha o cenário de preços global", explica.
O timing da crise atinge os mercados de formas distintas. Nos Estados Unidos, o impacto é urgente. Os agricultores norte-americanos estão em plena preparação para a safra de primavera, momento de pico na demanda por fertilizantes. Se os preços elevados forem repassados agora, as margens de lucro da safra dos EUA estarão seriamente comprometidas.
No Brasil, o cenário é de cautela estratégica. Como o grande volume de compras de nitrogenados para a safrinha de milho costuma ocorrer nos meses finais do ano, o impacto nas lavouras não é imediato, mas o risco financeiro é real. Importadores brasileiros estão adotando uma postura de "esperar para ver", embora não existam garantias de que os preços recuarão no curto prazo.
| Fertilizante | Alta na Semana (Portos BR) | Variação em Dólar |
| Nitrato de Amônio | ~ 28% | + US$ 100/ton |
| Ureia | > 15% | Alta consistente |
| Gás Natural (Matéria-prima) | Em alta | Impacto na produção |
A produção de nitrogenados é intensiva em gás natural. Com o Oriente Médio em chamas, o custo da matéria-prima sobe e a logística de entrega torna-se um pesadelo para os navios graneleiros. O desvio de rotas para evitar zonas de conflito eleva o frete e o seguro das cargas, custos que acabam desembarcando no Porto de Paranaguá ou Santos.
"A falta de previsibilidade torna o mercado difícil de antecipar. Não há garantia de que os preços estarão mais favoráveis nas próximas semanas", alerta Pernías.
Para o produtor brasileiro, o conselho dos analistas é o monitoramento diário da relação de troca. Se o preço do milho ou do trigo não acompanhar a valorização dos fertilizantes, o "custo do adubo" pode inviabilizar a tecnologia pretendida para a próxima safrinha. A diversificação de fornecedores e a atenção aos estoques internos das misturadoras brasileiras serão os diferenciais para quem busca fugir do pico de preços.
A StoneX reforça que o nível de incerteza é o maior dos últimos anos, superando momentos críticos da pandemia em termos de rapidez na variação de preços.