Apagão de ofertas: conflito faz fornecedores retirarem fertilizantes do mercado
Publicado em 10/03/2026 10h09

Apagão de ofertas: conflito faz fornecedores retirarem fertilizantes do mercado

O conflito no Oriente Médio provocou uma disparada nos preços dos fertilizantes, com o nitrato de amônio subindo 28% nos portos brasileiros em apenas uma semana.
Por: Redação

O mercado de insumos agrícolas vive dias de extrema volatilidade após o agravamento das tensões no Oriente Médio. O impacto nas cadeias de suprimento foi imediato e severo: nos portos brasileiros, a ureia registrou alta superior a 15%, enquanto o nitrato de amônio disparou cerca de 28%, com um salto que ultrapassou os US$ 100 por tonelada em apenas sete dias. Os dados, analisados pela consultoria StoneX, acendem um alerta para o planejamento das safras de 2026.

A disparada não é apenas especulativa, mas fundamentada em interrupções reais na produção e na logística. Ataques recentes no Catar provocaram uma redução direta na fabricação de nitrogenados, diminuindo a disponibilidade global. Além disso, a navegação no Estreito de Hormuz — artéria vital para o escoamento de fertilizantes, gás natural e enxofre — está sob ameaça, o que trava o fluxo de mercadorias que saem dos maiores produtores mundiais.

Segundo Tomás Pernías, analista da StoneX, o "apagão" de ofertas é uma estratégia de defesa dos fornecedores. "Muitos retiraram suas ofertas enquanto aguardam clareza sobre a situação. O Oriente Médio responde por cerca de 40% das exportações mundiais de ureia, e qualquer interrupção prolongada redesenha o cenário de preços global", explica.

Impacto nos EUA vs. Brasil

O timing da crise atinge os mercados de formas distintas. Nos Estados Unidos, o impacto é urgente. Os agricultores norte-americanos estão em plena preparação para a safra de primavera, momento de pico na demanda por fertilizantes. Se os preços elevados forem repassados agora, as margens de lucro da safra dos EUA estarão seriamente comprometidas.

No Brasil, o cenário é de cautela estratégica. Como o grande volume de compras de nitrogenados para a safrinha de milho costuma ocorrer nos meses finais do ano, o impacto nas lavouras não é imediato, mas o risco financeiro é real. Importadores brasileiros estão adotando uma postura de "esperar para ver", embora não existam garantias de que os preços recuarão no curto prazo.

Fertilizante Alta na Semana (Portos BR) Variação em Dólar
Nitrato de Amônio ~ 28% + US$ 100/ton
Ureia > 15% Alta consistente
Gás Natural (Matéria-prima) Em alta Impacto na produção

O Desafio da Logística e do Gás

A produção de nitrogenados é intensiva em gás natural. Com o Oriente Médio em chamas, o custo da matéria-prima sobe e a logística de entrega torna-se um pesadelo para os navios graneleiros. O desvio de rotas para evitar zonas de conflito eleva o frete e o seguro das cargas, custos que acabam desembarcando no Porto de Paranaguá ou Santos.

"A falta de previsibilidade torna o mercado difícil de antecipar. Não há garantia de que os preços estarão mais favoráveis nas próximas semanas", alerta Pernías.

Para o produtor brasileiro, o conselho dos analistas é o monitoramento diário da relação de troca. Se o preço do milho ou do trigo não acompanhar a valorização dos fertilizantes, o "custo do adubo" pode inviabilizar a tecnologia pretendida para a próxima safrinha. A diversificação de fornecedores e a atenção aos estoques internos das misturadoras brasileiras serão os diferenciais para quem busca fugir do pico de preços.

A StoneX reforça que o nível de incerteza é o maior dos últimos anos, superando momentos críticos da pandemia em termos de rapidez na variação de preços.