O mercado internacional de petróleo opera nesta segunda-feira (9) em território histórico. O barril do Brent chegou a US$ 119,50 — alta de até 29% no pregão — e o West Texas Intermediate (WTI), referência norte-americana, tocou US$ 119,48, com valorização intradiária de 31,4%. Os números representam o maior salto percentual em um único dia já registrado nos dois contratos, superando até os movimentos extremos observados durante a pandemia de covid-19 em 2020.
No fechamento parcial do pregão, o Brent subia US$ 15,51, ou 16,7%, a US$ 108,20 por barril, enquanto o WTI avançava US$ 14,23, ou 15,7%, a US$ 105,13. Antes mesmo desta sessão, os contratos já acumulavam altas expressivas: o Brent somava 27% de valorização na semana anterior e o WTI, 35,6%. Em dez dias de conflito entre EUA, Israel e Irã, o petróleo percorreu um caminho sem paralelo recente na história das commodities energéticas.
A resposta dos países ricos foi imediata. Os ministros das Finanças do G7 convocaram reunião de emergência para esta segunda-feira para discutir uma liberação coordenada de reservas estratégicas de petróleo. Segundo o Poder360, a medida em discussão pode chegar a 400 milhões de barris, em conjunto com a Agência Internacional de Energia (AIE). A Saudi Aramco também reagiu ao cenário, oferecendo fornecimento imediato de petróleo bruto por meio de licitações — movimento que contribuiu para reduzir os ganhos nos momentos mais extremos do pregão.
A escalada do conflito não ficou restrita ao campo de batalha. No campo energético, Iraque e Kuwait anunciaram cortes na produção de petróleo, somando-se às restrições de gás natural liquefeito (GNL) já impostas pelo Catar. Analistas avaliam que Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita devem seguir o mesmo caminho em breve, pressionados pelo esgotamento da capacidade de armazenamento diante da impossibilidade de exportar pelo Estreito de Ormuz.
O refinado de Bahrein, operado pela Bapco, declarou força maior após ataque ao seu complexo industrial. Nos Emirados Árabes Unidos, um incêndio atingiu a zona industrial petrolífera de Fujairah após a queda de detritos. A Arábia Saudita, por sua vez, informou ter interceptado um drone direcionado ao campo petrolífero de Shaybah — um dos maiores do mundo.
A nomeação de Mojtaba Khamenei para suceder seu pai Ali Khamenei como líder supremo do Irã agravou as perspectivas de resolução rápida do conflito. O movimento sinaliza continuidade da linha dura em Teerã e reduz as chances de negociação de curto prazo. "Com a nomeação do filho do falecido líder, o objetivo do presidente dos EUA, Donald Trump, de mudança de regime no Irã tornou-se mais difícil", disse Satoru Yoshida, analista de commodities da Rakuten Securities.
"Essa visão acelerou a compra, já que se espera que o Irã continue fechando o Estreito de Ormuz e atacando as instalações de outras nações produtoras de petróleo, como visto na semana passada", afirmou Yoshida, projetando que o WTI poderia avançar para US$ 120 e depois para US$ 130 por barril em um período relativamente curto.
O ministro de energia do Catar declarou ao Financial Times esperar que todos os produtores do Golfo Pérsico fechem as exportações dentro de semanas — o que, segundo ele, poderia levar o barril a US$ 150. "O pior cenário possível está se desenvolvendo diante de nossos olhos", disse John Kilduff, sócio da Again Capital.
Para o agronegócio brasileiro, cada dólar a mais no barril de petróleo representa pressão direta sobre três frentes simultâneas: diesel, fertilizantes e frete. O Brasil importa cerca de 30% do diesel consumido internamente, e a defasagem entre o preço do mercado internacional e o praticado pela Petrobras já atingiu novo recorde, segundo o Jornal O Sul. Pesquisa da ValeCard projeta alta de R$ 0,40 a R$ 0,70 por litro no diesel caso o barril se consolide acima de US$ 100 — limiar já ultrapassado nesta segunda.
A Petrobras, que segue a Política de Preços de Importação (PPI) para calibrar os reajustes domésticos, enfrenta pressão crescente para anunciar reajuste. Cada decisão de repasse encarece diretamente as operações na lavoura: colhedoras, tratores, irrigação, secagem de grãos e transporte consomem diesel em todas as etapas.
No segmento de fertilizantes, a vulnerabilidade é estrutural. O Brasil importa entre 80% e 85% dos nutrientes que utiliza na agricultura, com o Oriente Médio respondendo por mais de 40% da oferta global de ureia e participação relevante em amônia e fosfatados. A cotação da ureia já avançava para US$ 630 por tonelada antes desta segunda-feira, e analistas aguardam novos impactos nas cotações ao longo da semana.
Os fretes rodoviários, pressionados desde o início do pico de escoamento da safra 2025/26, devem sentir novo impulso de alta. A tabela de piso mínimo para transporte de cargas tem gatilho automático de repasse a cada 5% de variação no diesel — mecanismo que pode ser acionado mais de uma vez nos próximos dias, dependendo da decisão da Petrobras.
As interrupções no Estreito de Ormuz afetam de forma especialmente grave os compradores asiáticos, que dependem do petróleo bruto do Oriente Médio. China, Japão, Coreia do Sul e Índia estão entre os mais expostos, e a busca por fontes alternativas de abastecimento deverá intensificar a concorrência por barris disponíveis fora da região — o que amplia a oportunidade para produtores como Brasil e Estados Unidos, mas também eleva os custos logísticos globais.
"A menos que os fluxos de petróleo pelo Estreito de Ormuz sejam retomados em breve e que as tensões regionais diminuam, é provável que a pressão de alta sobre os preços persista", disse Vasu Menon, diretor-gerente de estratégia de investimentos do OCBC em Singapura.
No Brasil, o cenário combina câmbio pressionado, commodity energética em disparada, fertilizantes mais caros e mercados consumidores do Oriente Médio sob conflito — justamente quando o país opera no pico do escoamento da safra 2025/26.