
Plataforma Petroleo. Foto: Tania Regô - Agência Brasil
O barril do petróleo Brent fechou a US$ 92,69 na sexta-feira (6), depois de acumular alta de 27% em apenas uma semana de conflito. O West Texas Intermediate (WTI), referência norte-americana, terminou o dia a US$ 90,90, com valorização de 12,21% apenas na sessão — o maior ganho diário desde a pandemia de covid-19, em 2020. A escalada é direta consequência dos ataques lançados por EUA e Israel contra o Irã no último sábado (28), que levaram Teerã a interromper a passagem de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz.
Pelo estreito, encravado entre o Irã e Omã, circula normalmente cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo — o equivalente a aproximadamente 20 milhões de barris por dia. Com o bloqueio efetivo do canal por sete dias, estima-se que cerca de 140 milhões de barris não chegaram ao mercado, volume suficiente para abastecer a demanda global por aproximadamente 1,4 dia. O impacto sobre os preços foi imediato e se espalhou por toda a cadeia produtiva global, chegando com força ao agronegócio brasileiro.
Para o campo, o momento é especialmente sensível. O país vive o pico do escoamento da safra 2025/26, quando a demanda por transporte rodoviário atinge seu maior nível do ano, e o diesel é insumo central tanto para os caminhões que levam a produção aos portos quanto para as máquinas que ainda operam na colheita em diversas regiões.
Os primeiros reflexos já apareceram nas bombas. Levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) entre 1 e 6 de março mostrou que o preço do diesel S10 subiu 1% na semana, passando de R$ 6,09 para R$ 6,15 por litro. O movimento pode se aprofundar. Segundo estimativa da ValeCard, empresa especializada em gestão de frotas e abastecimento, se o petróleo se aproximar de US$ 100 por barril, o diesel no Brasil pode ter um acréscimo de R$ 0,40 a R$ 0,70 por litro — considerando o dólar entre R$ 5 e R$ 5,50 e o repasse integral da alta ao mercado interno.
Maurício Buffon, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), alerta para o peso estrutural do combustível no custo da lavoura. "Esse percentual corresponde ao gasto só para tirar o produto da lavoura e escoar, mas também se usa diesel dentro da fazenda, para outros processos, como o abastecimento das máquinas que fazem a colheita", afirma. Segundo ele, frete e combustíveis representam entre 25% e 30% do custo de produção total.
Se o diesel já preocupa, os fertilizantes concentram a maior parte da atenção dos especialistas. O Brasil importa entre 80% e 85% dos nutrientes que consome em sua agricultura — e o Oriente Médio ocupa posição central nessa cadeia de abastecimento. A região responde por mais de 40% das exportações globais de ureia e possui participação relevante na oferta de amônia e fosfatados. O Irã, especificamente, é um dos principais produtores de nitrogenados e um fornecedor estratégico de gás natural para a região.
Dados da Tax Group apontam que o Brasil importou US$ 7,1 bilhões em produtos do Oriente Médio em 2025, dos quais US$ 2,2 bilhões foram destinados à compra de fertilizantes — o equivalente a 14% das importações totais do insumo. Com o conflito, os preços da ureia já avançaram no mercado internacional, com cotações chegando a US$ 630 por tonelada segundo relatos do setor.
"Tivemos aumento do custo dos combustíveis na pandemia de covid-19, mas, naquele momento, o fertilizante estava mais barato. Agora, cerca de 50% do custo de produção pode ficar comprometido, a depender de quanto a guerra for se estender", disse Buffon. Os adubos representam, em média, 20% das despesas nas lavouras brasileiras.
A alta do petróleo chegou em um momento em que a logística do agronegócio brasileiro já operava sob pressão. Antes mesmo do início do conflito no Oriente Médio, a safra 2025/26 acumulava restrições logísticas. A colheita avançou em ritmo mais acelerado do que na temporada anterior, elevando a demanda por fretes em janeiro e fevereiro, período que coincidiu com chuvas intensas no Norte do país, prejudicando o acesso a Miritituba (PA), ponto estratégico do Arco Norte.
"Essa situação resultou em cargas paralisadas, aumento do tempo de espera e necessidade de reajuste dos valores de frete, como forma de atrair motoristas e compensar o período ocioso que os caminhoneiros enfrentam na região", explicou Thiago Péra, coordenador geral do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Esalq (Esalq-Log). Pesquisas da entidade calculam que esse fator, por si só, já fez o frete para o Arco Norte subir 5%.
Com o diesel mais caro, a pressão tende a persistir na entressafra, período em que os valores de frete normalmente recuam. A tabela de pisos mínimos para transporte rodoviário tem um gatilho automático de repasse ao frete a cada 5% de alta no preço do combustível — mecanismo que pode ampliar o efeito da crise sobre a rentabilidade dos produtores nos meses seguintes.
O conflito também ameaça o lado da receita do agronegócio brasileiro. O Oriente Médio é destino relevante para as exportações brasileiras de milho, carne de frango, carne bovina e açúcar. O Irã respondeu por cerca de 23% das vendas externas de milho do Brasil em 2025 — uma fatia que pode ser comprometida pela guerra e pelas sanções que devem acompanhar o conflito.
A indústria da carne bovina chegou a estimar risco de perda de até 40% das exportações para a região, segundo reportagem do Globo Rural. Para o frango, a ABPA já alertou sobre os esforços necessários para construir alternativas logísticas que mantenham o fluxo para destinos afetados pelo conflito no Golfo.
A reativação de unidades de nitrogenados no Nordeste do Brasil reduz, de forma limitada, a vulnerabilidade doméstica ao corte de fornecimento de fertilizantes. A diversificação de fornecedores e alternativas como o sulfato de amônio ganham relevância em um ambiente de preços elevados.
No mercado financeiro, analistas já falam abertamente em petróleo a US$ 100 por barril. "O pior cenário possível está se desenvolvendo diante de nossos olhos", disse John Kilduff, sócio da Again Capital. O ministro de energia do Catar declarou ao Financial Times esperar que todos os produtores do Golfo Pérsico fechem as exportações dentro de semanas — o que, segundo ele, poderia levar o barril a US$ 150.
O Brasil, maior produtor e exportador agrícola do mundo, monitora um cenário em que a combinação de energia mais cara, insumos pressionados e mercados consumidores em conflito forma um quadro inédito para o setor.