Petróleo sobe 27% em uma semana e ameaça custos do agro brasileiro
Publicado em 09/03/2026 11h34

Petróleo sobe 27% em uma semana e ameaça custos do agro brasileiro

Com o petróleo Brent a US$ 92,69 após alta de 27% em uma semana, a guerra no Oriente Médio ameaça diesel, fertilizantes e fretes no auge da safra brasileira.
Por: Redação

Plataforma Petroleo. Foto: Tania Regô - Agência Brasil

O barril do petróleo Brent fechou a US$ 92,69 na sexta-feira (6), depois de acumular alta de 27% em apenas uma semana de conflito. O West Texas Intermediate (WTI), referência norte-americana, terminou o dia a US$ 90,90, com valorização de 12,21% apenas na sessão — o maior ganho diário desde a pandemia de covid-19, em 2020. A escalada é direta consequência dos ataques lançados por EUA e Israel contra o Irã no último sábado (28), que levaram Teerã a interromper a passagem de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz.

Pelo estreito, encravado entre o Irã e Omã, circula normalmente cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo — o equivalente a aproximadamente 20 milhões de barris por dia. Com o bloqueio efetivo do canal por sete dias, estima-se que cerca de 140 milhões de barris não chegaram ao mercado, volume suficiente para abastecer a demanda global por aproximadamente 1,4 dia. O impacto sobre os preços foi imediato e se espalhou por toda a cadeia produtiva global, chegando com força ao agronegócio brasileiro.

Para o campo, o momento é especialmente sensível. O país vive o pico do escoamento da safra 2025/26, quando a demanda por transporte rodoviário atinge seu maior nível do ano, e o diesel é insumo central tanto para os caminhões que levam a produção aos portos quanto para as máquinas que ainda operam na colheita em diversas regiões.

Diesel mais caro, margem mais apertada

Os primeiros reflexos já apareceram nas bombas. Levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) entre 1 e 6 de março mostrou que o preço do diesel S10 subiu 1% na semana, passando de R$ 6,09 para R$ 6,15 por litro. O movimento pode se aprofundar. Segundo estimativa da ValeCard, empresa especializada em gestão de frotas e abastecimento, se o petróleo se aproximar de US$ 100 por barril, o diesel no Brasil pode ter um acréscimo de R$ 0,40 a R$ 0,70 por litro — considerando o dólar entre R$ 5 e R$ 5,50 e o repasse integral da alta ao mercado interno.

Maurício Buffon, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), alerta para o peso estrutural do combustível no custo da lavoura. "Esse percentual corresponde ao gasto só para tirar o produto da lavoura e escoar, mas também se usa diesel dentro da fazenda, para outros processos, como o abastecimento das máquinas que fazem a colheita", afirma. Segundo ele, frete e combustíveis representam entre 25% e 30% do custo de produção total.

Fertilizantes: o ponto mais sensível da crise

Se o diesel já preocupa, os fertilizantes concentram a maior parte da atenção dos especialistas. O Brasil importa entre 80% e 85% dos nutrientes que consome em sua agricultura — e o Oriente Médio ocupa posição central nessa cadeia de abastecimento. A região responde por mais de 40% das exportações globais de ureia e possui participação relevante na oferta de amônia e fosfatados. O Irã, especificamente, é um dos principais produtores de nitrogenados e um fornecedor estratégico de gás natural para a região.

Dados da Tax Group apontam que o Brasil importou US$ 7,1 bilhões em produtos do Oriente Médio em 2025, dos quais US$ 2,2 bilhões foram destinados à compra de fertilizantes — o equivalente a 14% das importações totais do insumo. Com o conflito, os preços da ureia já avançaram no mercado internacional, com cotações chegando a US$ 630 por tonelada segundo relatos do setor.

"Tivemos aumento do custo dos combustíveis na pandemia de covid-19, mas, naquele momento, o fertilizante estava mais barato. Agora, cerca de 50% do custo de produção pode ficar comprometido, a depender de quanto a guerra for se estender", disse Buffon. Os adubos representam, em média, 20% das despesas nas lavouras brasileiras.

Fretes já estavam pressionados antes da guerra

A alta do petróleo chegou em um momento em que a logística do agronegócio brasileiro já operava sob pressão. Antes mesmo do início do conflito no Oriente Médio, a safra 2025/26 acumulava restrições logísticas. A colheita avançou em ritmo mais acelerado do que na temporada anterior, elevando a demanda por fretes em janeiro e fevereiro, período que coincidiu com chuvas intensas no Norte do país, prejudicando o acesso a Miritituba (PA), ponto estratégico do Arco Norte.

"Essa situação resultou em cargas paralisadas, aumento do tempo de espera e necessidade de reajuste dos valores de frete, como forma de atrair motoristas e compensar o período ocioso que os caminhoneiros enfrentam na região", explicou Thiago Péra, coordenador geral do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Esalq (Esalq-Log). Pesquisas da entidade calculam que esse fator, por si só, já fez o frete para o Arco Norte subir 5%.

Com o diesel mais caro, a pressão tende a persistir na entressafra, período em que os valores de frete normalmente recuam. A tabela de pisos mínimos para transporte rodoviário tem um gatilho automático de repasse ao frete a cada 5% de alta no preço do combustível — mecanismo que pode ampliar o efeito da crise sobre a rentabilidade dos produtores nos meses seguintes.

Exportações em risco, mercados alternativos em busca

O conflito também ameaça o lado da receita do agronegócio brasileiro. O Oriente Médio é destino relevante para as exportações brasileiras de milho, carne de frango, carne bovina e açúcar. O Irã respondeu por cerca de 23% das vendas externas de milho do Brasil em 2025 — uma fatia que pode ser comprometida pela guerra e pelas sanções que devem acompanhar o conflito.

A indústria da carne bovina chegou a estimar risco de perda de até 40% das exportações para a região, segundo reportagem do Globo Rural. Para o frango, a ABPA já alertou sobre os esforços necessários para construir alternativas logísticas que mantenham o fluxo para destinos afetados pelo conflito no Golfo.

A reativação de unidades de nitrogenados no Nordeste do Brasil reduz, de forma limitada, a vulnerabilidade doméstica ao corte de fornecimento de fertilizantes. A diversificação de fornecedores e alternativas como o sulfato de amônio ganham relevância em um ambiente de preços elevados.

No mercado financeiro, analistas já falam abertamente em petróleo a US$ 100 por barril. "O pior cenário possível está se desenvolvendo diante de nossos olhos", disse John Kilduff, sócio da Again Capital. O ministro de energia do Catar declarou ao Financial Times esperar que todos os produtores do Golfo Pérsico fechem as exportações dentro de semanas — o que, segundo ele, poderia levar o barril a US$ 150.

O Brasil, maior produtor e exportador agrícola do mundo, monitora um cenário em que a combinação de energia mais cara, insumos pressionados e mercados consumidores em conflito forma um quadro inédito para o setor.