
Entidade aponta relatos de redução nos valores mesmo diante de aumento no mercado internacional. Foto Isabele Kleim Divulgação
O setor lácteo do Rio Grande do Sul vive um novo período de tensão entre o campo e a indústria. A Associação de Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando) formalizou o descontentamento da classe produtora diante de novos cortes nos valores pagos pelo leite. O movimento gera estranheza no setor, uma vez que indicadores nacionais e o mercado externo sinalizam um caminho oposto, de valorização ou estabilidade.
De acordo com relatos colhidos pela entidade junto aos criadores, as reduções nas notas de pagamento variam entre R$ 0,10 e R$ 0,20 por litro entregue às plataformas industriais. O recuo ocorre em um momento em que as sinalizações do Conselho Paritário Produtor/Indústrias de Leite (Conseleite) e as negociações em bolsas internacionais apontam para um cenário de firmeza nos preços.
O presidente da Gadolando, Marcos Tang, destaca que a indignação dos pecuaristas é fundamentada pela falta de coerência mercadológica. Para a entidade, o produtor está sendo penalizado sem uma justificativa técnica clara, especialmente quando o contexto global indica que o produto deveria estar mais valorizado devido à oferta ajustada.
QUEDA NO CAMPO
Redução relatada: Entre R$ 0,10 e R$ 0,20 por litro.
Cenário externo: Indicadores apontam estabilidade ou alta.
Situação do produtor: Margem financeira drasticamente reduzida.
A nova pressão negativa sobre os preços atinge a pecuária gaúcha em um momento de vulnerabilidade extrema. O estado atravessou anos sucessivos de estiagens severas e, mais recentemente, enfrentou o impacto devastador de enchentes que desarticularam a logística e a base produtiva de diversas bacias leiteiras. Essas intempéries elevaram os custos de produção e reduziram a capacidade de investimento das fazendas.
Com a margem de lucro comprimida, qualquer variação de centavos no preço final do litro compromete a sustentabilidade da atividade. Tang reforça que o produtor está praticamente sem "fôlego" financeiro para absorver novas perdas, o que pode acelerar o abandono da atividade por pequenos e médios criadores, agravando o processo de concentração do setor.
A falta de entendimento sobre a lógica aplicada pela indústria local tem gerado um clima de incerteza. Enquanto o mercado mundial ensaia uma recuperação, a realidade nas propriedades gaúchas é de desvalorização, o que prejudica o planejamento para a próxima safra e a manutenção do rebanho de alta linhagem, como o gado Holandês.
A Gadolando defende que a sobrevivência da cadeia láctea depende de uma relação mais transparente entre os elos. A entidade prega que a indústria e os produtores precisam estabelecer canais de diálogo mais eficientes para evitar decisões unilaterais que desestabilizem o setor primário. A dependência mútua é o argumento central para a busca de um convívio mais equilibrado.
A sustentabilidade da produção de leite no Rio Grande do Sul passa, necessariamente, pela garantia de preços que cubram os custos operacionais e permitam uma remuneração digna ao pecuarista. Sem essa previsibilidade, o estado corre o risco de perder competitividade frente a outras regiões produtoras que apresentam relações de troca mais favoráveis no momento.
O acompanhamento das próximas reuniões do Conseleite será determinante para balizar os valores oficiais e tentar frear a onda de desvalorização relatada no campo. A expectativa é que os indicadores de mercado consigam refletir a realidade dos custos e a valorização observada em âmbito global, devolvendo a rentabilidade mínima necessária aos criadores de gado leiteiro.
A entidade finalizou reforçando que a indústria depende diretamente da saúde financeira do produtor para garantir o fornecimento de matéria-prima com qualidade e volume constantes.