
Pela primeira vez, cientistas quantificaram a "dívida" de carbono do solo brasileiro decorrente das mudanças no uso da terra. O estudo, fruto de uma colaboração entre Esalq/USP, CCarbon/USP, Embrapa e UEPG, analisou mais de 4.200 amostras de solo em todos os biomas do país. O veredito é expressivo: a conversão para uso agropecuário resultou na perda de 1,4 bilhão de toneladas de carbono (camada de 0 a 30 cm), o equivalente à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO2 eq.
Apesar do número alarmante, o estudo funciona como um mapa de oportunidades. Ao identificar onde as perdas foram maiores, a pesquisa aponta os locais com maior potencial de "recarbonização" — ou seja, onde o solo tem mais capacidade de voltar a estocar carbono por meio de manejos adequados.
O estudo confirmou que biomas de clima mais frio e úmido, como o Pampa e a Mata Atlântica, possuem estoques naturais de carbono mais elevados. Consequentemente, foram as áreas que mais perderam carbono ao serem convertidas.
No entanto, no que diz respeito à recuperação, o Cerrado e a Mata Atlântica surgem como os grandes protagonistas, concentrando 72% do potencial de recarbonização do Brasil. O Cerrado sozinho poderia contribuir com o estoque de 0,53 bilhão de toneladas de carbono se adotadas práticas de manejo intensificado.
Déficit de Carbono por Sistema:
Monocultura: Perda média de 22% de carbono original.
Sistemas Integrados (ILP): Perda reduzida para apenas 8,6%.
Plantio Direto: Redução de 11,4% (contra 21,4% no convencional).
A pesquisa sublinha que a intensificação e a diversificação dos sistemas agrícolas são as chaves para estancar as perdas e iniciar a recuperação. Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e o Plantio Direto demonstraram ser muito mais eficientes na manutenção da matéria orgânica do solo. A diferença entre a semeadura direta e a convencional chega a 47% a favor da técnica conservacionista.
De acordo com os pesquisadores, se o Brasil recarbonizar apenas um terço do potencial estimado, será possível atingir as metas de redução de emissões (NDCs) estabelecidas no Acordo de Paris para 2035.
Além do valor ambiental, o estudo quantifica o "pote" do mercado de carbono brasileiro. Ao definir o déficit em 1,4 bilhão de toneladas, a ciência fornece uma base sólida para atrair investimentos na economia da descarbonização e dar credibilidade às políticas públicas nacionais em fóruns internacionais.
Para o setor produtivo, a mensagem é de otimismo tecnológico: a adoção de boas práticas não apenas melhora a saúde do solo, mas posiciona o produtor como parte fundamental da solução para as mudanças climáticas, gerando ativos que podem ser monetizados no mercado de crédito de carbono.
Entenda as unidades: 1 bilhão de toneladas = 1 Petagrama (Pg). CO2 eq = Medida que converte o potencial de aquecimento de outros gases (como metano e óxido nitroso) na base do gás carbônico.