Pesquisa na Nature mapeia "dívida" de carbono e aponta caminhos para o mercado
Publicado em 03/02/2026 11h57

Pesquisa na Nature mapeia "dívida" de carbono e aponta caminhos para o mercado

Uma pesquisa publicada na Nature Communications revelou que a conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias no Brasil gerou um déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono no solo, mas aponta que práticas sustentáveis podem reverter esse quadro.
Por: Redação

Pela primeira vez, cientistas quantificaram a "dívida" de carbono do solo brasileiro decorrente das mudanças no uso da terra. O estudo, fruto de uma colaboração entre Esalq/USP, CCarbon/USP, Embrapa e UEPG, analisou mais de 4.200 amostras de solo em todos os biomas do país. O veredito é expressivo: a conversão para uso agropecuário resultou na perda de 1,4 bilhão de toneladas de carbono (camada de 0 a 30 cm), o equivalente à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO2 eq.

Apesar do número alarmante, o estudo funciona como um mapa de oportunidades. Ao identificar onde as perdas foram maiores, a pesquisa aponta os locais com maior potencial de "recarbonização" — ou seja, onde o solo tem mais capacidade de voltar a estocar carbono por meio de manejos adequados.

O Potencial dos biomas e a influência do clima

O estudo confirmou que biomas de clima mais frio e úmido, como o Pampa e a Mata Atlântica, possuem estoques naturais de carbono mais elevados. Consequentemente, foram as áreas que mais perderam carbono ao serem convertidas.

No entanto, no que diz respeito à recuperação, o Cerrado e a Mata Atlântica surgem como os grandes protagonistas, concentrando 72% do potencial de recarbonização do Brasil. O Cerrado sozinho poderia contribuir com o estoque de 0,53 bilhão de toneladas de carbono se adotadas práticas de manejo intensificado.

Déficit de Carbono por Sistema:

  • Monocultura: Perda média de 22% de carbono original.

  • Sistemas Integrados (ILP): Perda reduzida para apenas 8,6%.

  • Plantio Direto: Redução de 11,4% (contra 21,4% no convencional).

Práticas sustentáveis como solução

A pesquisa sublinha que a intensificação e a diversificação dos sistemas agrícolas são as chaves para estancar as perdas e iniciar a recuperação. Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e o Plantio Direto demonstraram ser muito mais eficientes na manutenção da matéria orgânica do solo. A diferença entre a semeadura direta e a convencional chega a 47% a favor da técnica conservacionista.

De acordo com os pesquisadores, se o Brasil recarbonizar apenas um terço do potencial estimado, será possível atingir as metas de redução de emissões (NDCs) estabelecidas no Acordo de Paris para 2035.

Impacto no mercado e diplomacia

Além do valor ambiental, o estudo quantifica o "pote" do mercado de carbono brasileiro. Ao definir o déficit em 1,4 bilhão de toneladas, a ciência fornece uma base sólida para atrair investimentos na economia da descarbonização e dar credibilidade às políticas públicas nacionais em fóruns internacionais.

Para o setor produtivo, a mensagem é de otimismo tecnológico: a adoção de boas práticas não apenas melhora a saúde do solo, mas posiciona o produtor como parte fundamental da solução para as mudanças climáticas, gerando ativos que podem ser monetizados no mercado de crédito de carbono.

Entenda as unidades: 1 bilhão de toneladas = 1 Petagrama (Pg). CO2 eq = Medida que converte o potencial de aquecimento de outros gases (como metano e óxido nitroso) na base do gás carbônico.