Rabobank: Produção de etanol pode superar demanda nos próximos anos
Publicado em 29/01/2026 14h25

Rabobank: Produção de etanol pode superar demanda nos próximos anos

O rápido avanço na capacidade produtiva de etanol no Brasil levanta preocupações sobre um desequilíbrio entre oferta e demanda no curto e médio prazo.
Por: Redação

O cenário energético brasileiro atravessa um momento de reajuste estratégico diante da acelerada expansão da capacidade produtiva de etanol. Uma análise recente do Rabobank indica que o ritmo de crescimento da oferta, impulsionado especialmente pelo setor de milho, pode superar a evolução da demanda doméstica nos próximos anos. Este quadro desenha o risco de uma superoferta estrutural que impactaria diretamente as margens de lucro de todo o setor sucroenergético.

Embora existam vetores para o aumento do consumo, a maioria deles é vista como solução de longo prazo. O aumento do percentual obrigatório de mistura na gasolina e a demanda por combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e transporte marítimo são movimentos projetados apenas para o horizonte de 2029 e 2030. No curto prazo, entre 2026 e 2027, a absorção imediata desse volume adicional de biocombustível permanece como um desafio logístico e comercial.

Este potencial desequilíbrio acende um sinal de alerta que transborda para o mercado global de alimentos. Diante de preços pressionados no etanol, as usinas brasileiras tendem a ajustar seu mix de produção, direcionando uma parcela maior da cana-de-açúcar para a fabricação de açúcar. Esse movimento é regido pela arbitragem de margens: as unidades industriais buscam o produto que oferece melhor rentabilidade no momento, o que pode levar os preços de ambos à paridade.

Dinâmica de Mercado: Risco: Superoferta de etanol no curto e médio prazo. Reação das Usinas: Direcionamento da cana para produção de açúcar. Consequência: Influência direta nos preços do mercado internacional de açúcar.

A safra brasileira de cana-de-açúcar 2026/27 projeta-se robusta, o que já começa a ser precificado pelos agentes do mercado. No entanto, fatores externos podem impedir que o cenário de superoferta se consolide de forma permanente. Eventos climáticos adversos em outros grandes produtores mundiais de açúcar, como a Índia, podem limitar a oferta global do alimento, mantendo os preços internacionais elevados e sustentando o interesse das usinas brasileiras pela exportação da commodity.

A cotação do petróleo e da gasolina também exerce um papel fundamental na sustentação do setor. Uma alta nos preços dos combustíveis fósseis favorece a competitividade do etanol hidratado nas bombas, estimulando o consumo e reduzindo a pressão sobre os estoques. O comportamento da Petrobras e as possíveis mudanças tributárias sobre combustíveis fósseis são variáveis que permanecem no radar dos investidores e produtores nacionais.

Para o setor sucroenergético mundial, as mudanças no Brasil são determinantes. Como o maior exportador de açúcar e um dos líderes em biocombustíveis, qualquer alteração no mix de produção das usinas brasileiras gera reflexos imediatos nas bolsas de Londres e Nova York. A capacidade de adaptação das plantas industriais para alternar entre a produção de energia e de alimento é o que garante a resiliência do setor frente a crises de excesso de oferta.

A longo prazo, o sucesso do etanol brasileiro dependerá da consolidação de novos mercados, como a exportação para países que buscam metas agressivas de descarbonização. Enquanto essas janelas não se abrem plenamente, o planejamento estratégico das usinas deve focar na eficiência operacional e na gestão de risco de preços. O monitoramento das condições climáticas e da demanda global por energia renovável ditará se o atual ciclo de investimentos resultará em crescimento sustentável ou em pressão prolongada sobre as margens.