Safra cheia de cana e avanço do milho pressionam cotações do etanol
Publicado em 29/01/2026 12h00

Safra cheia de cana e avanço do milho pressionam cotações do etanol

O preço do etanol hidratado caiu 7,4% em dezembro, atingindo R$ 2,12 em Paulínia, sob pressão do avanço do etanol de milho e da safra recorde de cana.
Por: Redação

O mercado de biocombustíveis brasileiro iniciou o ano de 2026 enfrentando um cenário de forte pressão sobre as cotações. Segundo dados consolidados pela Consultoria Agro do Itaú BBA, o etanol hidratado registrou uma desvalorização de 7,4% no fechamento de dezembro, sendo negociado a uma média de R$ 2,12 por litro na praça de Paulínia (SP). Este movimento reflete um desequilíbrio entre a oferta abundante e uma procura que ainda não apresenta sinais de recuperação vigorosa.

A trajetória de queda nos preços decorre diretamente da maior disponibilidade do biocombustível no mercado interno. Dois pilares sustentam esse aumento de oferta: o excelente desempenho da colheita de cana-de-açúcar e o avanço contínuo das usinas que utilizam o milho como matéria-prima. Essa combinação de fontes gerou um excedente que o mercado doméstico ainda tenta absorver de forma gradual.

O etanol de milho, especificamente, consolidou sua posição estratégica dentro da matriz energética nacional. Na região Centro-Oeste, o peso deste segmento já ultrapassa a marca de 20% da produção total de combustíveis renováveis. A expansão das unidades de processamento de cereal garante uma oferta regular ao longo de todo o ano, atenuando os efeitos da entressafra tradicional da cana e modificando a dinâmica de preços regional.

Desempenho da Produção: Participação do milho na produção do Centro-Oeste: acima de 20%. Preço médio do hidratado em Paulínia (Dez/25): R$ 2,12/litro. Retração mensal nas cotações: 7,4%.

A safra 2025/26 de cana-de-açúcar apresentou resultados operacionais positivos, contribuindo para o estoque elevado. As usinas brasileiras registraram um rendimento industrial elevado, aproveitando janelas climáticas favoráveis para otimizar a moagem. Com mais matéria-prima entrando nas unidades de processamento, a fabricação de etanol hidratado e anidro ganhou ritmo, inundando os canais de distribuição em um período de consumo estável.

Pelo lado da demanda, o encerramento de 2025 foi marcado por uma estagnação no consumo de combustíveis leves. A desaceleração econômica pontual limitou o deslocamento de passageiros e a atividade logística urbana, impactando a saída do hidratado nos postos. O único fator que evitou uma queda ainda mais acentuada nas cotações foi a procura pelo etanol anidro, utilizado na mistura obrigatória com a gasolina C.

O interesse das distribuidoras pelo anidro serviu como um amortecedor para as perdas do setor produtivo. Como a mistura permanece estável, o volume demandado para acompanhar o consumo de gasolina garantiu um escoamento mínimo para as usinas. Entretanto, a paridade entre o etanol e o combustível fóssil na bomba segue sendo monitorada com atenção, já que qualquer oscilação no preço da gasolina na refinaria atinge a competitividade do biocombustível.

Fatores de Pressão no Mercado:

  1. Elevada disponibilidade de estoques de passagem.

  2. Estagnação do consumo de combustíveis no final de 2025.

  3. Competitividade direta com a gasolina nas bombas.

As projeções indicam que a pressão sobre os preços deve persistir no curto prazo. O reequilíbrio entre a oferta e a demanda depende de uma retomada econômica mais robusta que impulsione o consumo nas cidades. Além disso, o setor monitora o comportamento do mercado internacional de petróleo, uma vez que quedas no valor do barril limitam as margens de aumento para o álcool combustível no mercado interno.

Diante da saturação doméstica, o setor sucroenergético intensifica a busca por novos mercados internacionais. A ampliação das exportações surge como a principal válvula de escape para reduzir os estoques internos e estabilizar as cotações. Investimentos em logística e a abertura de novos canais de venda para o etanol industrial e para combustível em outros continentes são estratégias prioritárias para 2026.

A eficiência logística tornou-se um diferencial para as usinas, especialmente as localizadas no interior do país. O escoamento do etanol de milho do Centro-Oeste para os grandes centros consumidores do Sudeste exige fretes competitivos para que o produto chegue aos postos com preços atrativos. O avanço dos modais de transporte e a modernização dos terminais de armazenamento são fundamentais para sustentar essa expansão produtiva.

A inovação tecnológica também desempenha um papel na manutenção da competitividade. As usinas de milho estão agregando valor ao processo através da venda de subprodutos, como o DDG (grãos de destilaria secos), utilizados na nutrição de bovinos de corte e leite. Essa diversificação de receita permite que as empresas suportem períodos de preços baixos no etanol, mantendo a operação financeira equilibrada mesmo diante das oscilações das commodities.

O cenário para o restante da safra exigirá uma gestão cuidadosa dos estoques. A expectativa é que, com o início das atividades de inverno e a manutenção da mistura obrigatória, o mercado encontre um ponto de suporte. A consolidação do milho como matéria-prima garante que o Brasil tenha segurança energética e menor volatilidade de oferta, fatores que beneficiam o planejamento logístico das distribuidoras e a previsibilidade para o consumidor final.

O agronegócio nacional demonstra, mais uma vez, sua capacidade de escala e adaptação. Mesmo com os preços pressionados pela abundância da colheita, a robustez da produção de biocombustíveis assegura o papel do país como líder global em energia limpa. O desafio imediato permanece na gestão comercial e na abertura de fronteiras externas para absorver o potencial produtivo de um campo que não para de bater recordes.