
O mercado internacional de trigo iniciou o ano de 2026 com um viés de baixa consolidado pelas novas estimativas de oferta. Na Bolsa de Chicago (CBOT), os preços do contrato de primeira posição recuaram 1,6% no encerramento de dezembro de 2025, fechando o período em USD 5,39 por bushel. A tendência de desvalorização manteve o ritmo na primeira metade de janeiro, com um recuo adicional de 1,4%, posicionando o cereal no patamar de USD 5,32 por bushel.
A produção global para o ciclo 2025/26 foi revisada para cima pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) no relatório divulgado em janeiro. A estimativa subiu para 796,7 milhões de toneladas, superando os números apresentados no mês anterior. O ajuste decorre de revisões positivas nas safras da Rússia, do Canadá e da Arábia Saudita, que compensaram perdas em outras regiões produtoras.
A Rússia, maior exportador mundial do grão, teve sua estimativa de produção elevada para 91 milhões de toneladas. O aumento na oferta russa exerce pressão direta sobre os prêmios de exportação no Mar Negro. Esse volume robusto garante a competitividade do trigo russo no tabuleiro internacional, competindo de forma agressiva com as origens europeia e norte-americana pelo domínio dos principais mercados importadores.
No Canadá, as condições climáticas favoráveis durante o desenvolvimento das lavouras permitiram um ajuste positivo nos números da colheita. A produção canadense foi estimada em 33,7 milhões de toneladas. A qualidade do grão e o volume disponível para o comércio externo contribuem para a composição de estoques globais mais confortáveis, retirando o suporte para tentativas de altas expressivas nas cotações no curto prazo.
Os estoques finais mundiais para a temporada 2025/26 acompanharam o movimento de alta na produção. O volume armazenado foi ajustado para 260 milhões de toneladas. Embora o número ainda reflita um equilíbrio justo em termos históricos, o acréscimo mensal de 1,8 milhão de toneladas sinaliza uma folga maior para os compradores internacionais e moinhos, reduzindo a volatilidade dos preços.
Na Argentina, principal parceiro comercial do Brasil no setor, a colheita aproxima-se da fase final com resultados dentro do esperado. As projeções de produção situam-se em torno de 14,5 milhões de toneladas. A entrada acelerada do grão argentino no mercado do Mercosul amplia a oferta regional, o que acaba pressionando os preços pagos ao produtor brasileiro neste início de temporada.
O mercado doméstico brasileiro sentiu os reflexos diretos da desvalorização externa e da maior oferta regional. No Paraná, principal estado produtor do país, os preços caíram 5,5% durante o mês de dezembro. A movimentação comercial segue em ritmo lento, com as indústrias moageiras aguardando definições de preços internacionais e maior clareza sobre o câmbio antes de fechar novos lotes.
As importações de trigo pelo Brasil mantiveram-se regulares para atender a demanda das fábricas de farinha e massas. A preferência pelo cereal argentino permanece devido à isenção de tarifas do bloco comercial e à logística facilitada. O excedente exportável da Argentina garante o abastecimento dos moinhos nacionais nos primeiros meses de 2026, mantendo o fluxo de moagem estável.
O consumo global de trigo foi estimado em 801,2 milhões de toneladas pelo USDA. Esse número demonstra que a demanda continua aquecida, especialmente para a alimentação humana. O balanço entre oferta e consumo aponta para um déficit produtivo global de 4,5 milhões de toneladas, que será coberto pela utilização dos estoques iniciais das temporadas passadas.
No Hemisfério Norte, as lavouras de inverno encontram-se em período de dormência vegetativa. As condições de cobertura de neve são monitoradas para garantir a proteção contra geadas severas nos Estados Unidos e na Europa Oriental. A saúde dessas plantas será um fator determinante para as expectativas de oferta da próxima safra mundial, que começará a ser colhida em meados do ano.
A competitividade do trigo brasileiro enfrenta os desafios dos custos logísticos e a concorrência do grão importado. O produtor nacional busca alternativas de comercialização, focando em janelas de oportunidade para exportação do trigo tipo feed ou integração com a nutrição animal. A qualidade industrial do trigo colhido na última safra brasileira é considerada satisfatória na média das regiões.
O USDA manteve a estimativa de exportações da Ucrânia em 14 milhões de toneladas para o ciclo atual. Apesar do cenário de conflito, o fluxo de escoamento pelos corredores marítimos continua operando, contribuindo para a manutenção da oferta global de cereais. A estabilidade nessas rotas comerciais é um componente de peso na formação de preços nas bolsas internacionais.
Os moinhos brasileiros monitoram a qualidade do grão argentino disponível para embarque. A proteína e a força de glúten são os parâmetros mais avaliados para a composição das farinhas destinadas à panificação e indústria de biscoitos. A safra da Argentina apresenta variabilidade de qualidade dependendo da região, exigindo seleções criteriosas por parte dos compradores industriais brasileiros.
As cotações do trigo na Bolsa de Chicago operam próximas das médias históricas dos últimos cinco anos. O cenário macroeconômico global, especialmente a trajetória das taxas de juros em economias centrais, pode influenciar a movimentação de fundos de investimento no mercado de commodities. Por enquanto, o foco dos operadores está voltado para os fundamentos diretos de oferta e demanda.
As chuvas registradas nas últimas semanas nas planícies centrais dos Estados Unidos melhoraram a umidade do solo em áreas de plantio. Esse fator beneficia o estabelecimento inicial das lavouras de inverno, que apresentavam condições abaixo da média em relatórios anteriores. O mercado aguarda a retomada do desenvolvimento vegetativo na primavera para ajustar as projeções de rendimento final.
As exportações globais de trigo foram estimadas em 216,5 milhões de toneladas na atualização de janeiro. A participação russa nesse total é de quase 24%, o que mostra a liderança absoluta do país no fornecimento mundial. A capacidade da Rússia em ditar os preços do mercado internacional permanece como a variável mais importante para a formação das cotações em Chicago e nas demais praças globais.