Importação de ureia no Brasil pode sofrer reflexos da tensão no Irã
Publicado em 15/01/2026 12h06

Importação de ureia no Brasil pode sofrer reflexos da tensão no Irã

A escalada de tensões envolvendo o Irã e a possível imposição de tarifas pelos Estados Unidos geram incertezas sobre a oferta e o preço da ureia no Brasil.
Por: Redação

Foto Fabrizio Zini / Pexels

O mercado brasileiro de fertilizantes iniciou 2026 sob o signo da cautela. A análise de Renata Cardarelli, especialista da Argus, aponta que o acirramento das tensões geopolíticas envolvendo o Irã estabeleceu um cenário de dúvidas sobre o fluxo global de nitrogenados. O Brasil, que importou 7,7 milhões de toneladas de ureia em 2025, monitora de perto os desdobramentos, uma vez que o país persa é um dos maiores produtores globais do insumo, com capacidade de 9 milhões de toneladas anuais.

A situação produtiva no Irã já apresenta gargalos físicos. Desde dezembro, as unidades fabris operam com capacidade reduzida devido aos cortes sazonais no fornecimento de gás natural, insumo básico da ureia, priorizado para o aquecimento residencial durante o inverno rigoroso. Como Turquia, Brasil e África do Sul são destinos tradicionais do produto iraniano, qualquer instabilidade adicional na região impacta diretamente a disponibilidade de lotes para o agronegócio nacional.

Um complicador estratégico no radar dos importadores é a possível triangulação de mercadorias. Segundo a Argus, volumes registrados como originários de Omã podem, na realidade, ter procedência iraniana. Essa distorção de dados aumenta o risco para agentes brasileiros diante da ameaça de uma tarifa de 25% que os Estados Unidos podem impor a nações que comercializam com o Irã, medida cujos efeitos práticos sobre a cadeia de suprimentos ainda são incertos.

“As consequências dessa medida ainda são difíceis de mensurar, afetando tanto fornecedores que atendem os EUA quanto agentes do mercado brasileiro”, avalia Renata Cardarelli.

O impasse atinge diretamente os grandes players do Oriente Médio e da Rússia. Atualmente, os nitrogenados russos, como a ureia e o UAN, entram no mercado norte-americano sem taxas de importação. Caso o governo dos EUA oficialize barreiras tarifárias como represália às relações com o Irã, o custo de oportunidade para os russos mudará drasticamente. A indefinição sobre custos adicionais mantém os preços em patamares voláteis.

Para o produtor brasileiro, esse xadrez geopolítico pode ter um efeito paradoxal. Se a ureia russa enfrentar barreiras financeiras para entrar nos Estados Unidos, é provável que esse excedente de carga seja redirecionado para outros grandes consumidores globais. Nesse contexto, o Brasil surge como o destino natural para esse fluxo, o que poderia aumentar a oferta interna e mitigar eventuais altas de preços causadas pela escassez iraniana.

Contudo, a logística e o financiamento dessas operações permanecem sob pressão. A incerteza sobre sanções secundárias pode dificultar o fechamento de câmbio e a contratação de fretes marítimos na região do Golfo Pérsico. O mercado brasileiro segue em compasso de espera, aguardando sinalizações mais claras de Washington e a evolução da oferta de gás no Irã para definir as estratégias de compra para a próxima safra.

A manutenção da competitividade do agronegócio brasileiro depende diretamente da estabilidade nos custos dos fertilizantes. Com a soja e o milho operando em margens estreitas, qualquer variação brusca no preço do nitrogênio compromete a rentabilidade do setor. A recomendação de especialistas é o monitoramento constante das janelas de oportunidade, antecipando compras caso o cenário de conflito se prolongue e afete a produção estrutural do Oriente Médio.