
A imposição de medidas de salvaguarda pela China sobre as importações de carne bovina estabelece um novo cenário para a pecuária brasileira em 2026. As restrições ocorrem na forma de tarifas consideradas proibitivas, que alcançam 67% (sendo 55% adicionais aos 12% já incidentes) sobre os volumes que excederem a cota de 1,1 milhão de toneladas. O movimento impõe ao Brasil o desafio imediato de ampliar e diversificar sua pauta de destinos externos, segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA.
A concentração das exportações brasileiras no mercado chinês é elevada. Em 2025, a China respondeu por aproximadamente 1,7 milhão de toneladas das vendas externas do Brasil. A realocação desse excedente é complexa, visto que o segundo maior destino, os Estados Unidos, absorveu pouco mais de 200 mil toneladas de carne in natura no último ano.
Apesar do esforço necessário para a redistribuição desses volumes, o contexto global de escassez de proteína bovina deve mitigar parte dos impactos adversos. Além disso, projeta-se uma contração de cerca de 2% na produção brasileira de carne bovina em 2026. Caso essa estimativa se confirme, haverá uma redução de aproximadamente 200 mil toneladas na oferta total, o que corresponde a um terço do volume que precisaria ser realocado.
A dinâmica comercial na América do Sul também deve passar por transformações. Países vizinhos como Argentina e Uruguai receberam cotas superiores aos volumes que exportaram para a China em 2025. A Argentina possui uma cota de 511 mil toneladas para 2026, enquanto o Uruguai conta com 324 mil toneladas.
Nesse contexto, o Brasil poderia ampliar o abastecimento do mercado doméstico argentino, permitindo que uma parcela maior da produção local daquele país seja direcionada para atender a demanda chinesa dentro das cotas estabelecidas. Essa reorganização regional surge como uma alternativa para manter o fluxo de escoamento da produção sul-americana.
Os Estados Unidos surgem como um destino estratégico para a carne brasileira em 2026. O déficit norte-americano projetado pelo USDA deve alcançar 1,3 milhão de toneladas, cerca de 100 mil toneladas acima do registrado em 2025. O Brasil reúne condições para ampliar os embarques para este mercado, especialmente em função da necessidade de abastecimento do consumo doméstico dos EUA.
Até o preenchimento da nova cota chinesa sujeita à tarifa reduzida de 12%, é razoável esperar uma aceleração dos embarques para o mercado asiático no início do ano. Contudo, analistas alertam para uma possível pressão sobre os preços do boi gordo nos meses de maior fluxo de abates, como a transição das águas para a seca (maio e junho) e o pico dos confinamentos (outubro e novembro).
A decisão chinesa de apoiar a produção doméstica ocorre após um período de estagnação da produção local em 2025. O novo cenário aponta para uma redução da disponibilidade interna de carne bovina na China, o que pode elevar os preços no mercado local chinês.
| País | Cota China 2026 (t) | Exportado Jan-Nov/25 (t) |
|---|---|---|
| Argentina | 511 mil | 436 mil |
| Uruguai | 324 mil | 188 mil |
A Argentina e o Uruguai possuem margem para ampliar embarques à China dentro das novas regras de salvaguarda.