A produção de soja no Brasil ganha um novo contorno com a aplicação de tecnologias sustentáveis desenvolvidas pela ciência nacional. A substituição de fertilizantes químicos por insumos biológicos, uma prática baseada em décadas de pesquisa, transforma o manejo no campo, une ganhos de produtividade com menor impacto ambiental e reduz os custos para o produtor rural.
A base dessa transformação está na Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN), um processo natural otimizado pela pesquisa. Com o manejo correto, a própria planta de soja, em simbiose com microrganismos, consegue captar o nitrogênio presente na atmosfera e convertê-lo em nutriente essencial para o seu desenvolvimento. A técnica diminui a dependência da adubação nitrogenada química, um dos insumos mais caros da cadeia produtiva.
O sucesso do processo depende da aplicação de bactérias benéficas diretamente nas sementes ou no sulco de plantio, prática conhecida como inoculação. A coinoculação, que consiste no uso combinado de diferentes microrganismos, tem apresentado resultados ainda mais expressivos. As estrelas desse processo são as bactérias do gênero Bradyrhizobium e a Azospirillum brasilense.
Enquanto o Bradyrhizobium é fundamental para a formação de nódulos nas raízes da soja, onde ocorre a FBN, o Azospirillum brasilense atua como um promotor de crescimento. Ele produz fitormônios que estimulam o desenvolvimento do sistema radicular da planta. Raízes mais robustas e profundas permitem uma absorção mais eficiente de água e outros nutrientes disponíveis no solo.
A relevância das pesquisas brasileiras nesta área foi recentemente chancelada pelo prêmio World Food Prize 2025, considerado o "Nobel da Agricultura", concedido à pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja. O reconhecimento internacional destaca o impacto de seu trabalho na promoção de uma agricultura mais sustentável e economicamente viável para milhões de produtores.
Os benefícios da inoculação e coinoculação se estendem por todo o ciclo da cultura. Desde a semeadura, os microrganismos trabalham para garantir uma nodulação eficiente e um arranque mais vigoroso das plantas. O resultado é uma lavoura mais resiliente e com maior potencial produtivo, mesmo em condições de estresse hídrico ou nutricional.
Para difundir essa tecnologia e garantir sua correta aplicação, a Embrapa Soja lançou a capacitação gratuita “Inoculação e coinoculação em soja”. O curso, totalmente on-line e autoinstrucional, possui carga horária de seis horas e é direcionado a engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas, produtores rurais e estudantes de ciências agrárias.
O conteúdo da capacitação aborda desde os fundamentos da Fixação Biológica do Nitrogênio até as boas práticas de manejo no campo. Os participantes aprendem sobre os efeitos da coinoculação na fisiologia da planta, os cuidados necessários durante o tratamento de sementes e os impactos da tecnologia na produtividade e na rentabilidade da lavoura. A iniciativa da Embrapa democratiza o acesso à informação e fortalece o papel da ciência na transição para um modelo de agricultura regenerativa.